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AULA 2 
PERÍCIA CONTÁBIL 
Prof. Michael Dias Corrêa 
 
 
2 
INTRODUCÃO 
Veremos a seguir como funciona a abordagem técnica da perícia, com 
atribuições legais e outras características importantes do profissional que atua na 
área. Na sequência, vamos apresentar o funcionamento das normas profissionais 
aplicadas à função pericial, e o que é necessário observar, além das questões 
técnicas, para atuar nesse âmbito. Posteriormente, veremos o novo Código de 
Processo Civil, princípios da Constituição, entre outras questões. Na sequência, 
vamos estudar a perícia judicial e extrajudicial, analisando como são diferentes, 
como os profissionais atuam na área, além de outros tópicos relacionados. Por 
fim, apresentamos um estudo de caso ligado à atuação do perito, buscando 
entender o seu papel na resolução de lides. 
TEMA 1 – ABORDAGEM TÉCNICA 
A questão técnica ligada à figura do perito pode se basear em diversos 
pontos da literatura, considerando a legislação e as normas que devem ser 
observadas no desempenho da função. 
Essa figura é definida conforme a NBC PP (CFC, 2016a), que dispõe sobre 
as atribuições legais, relatando ainda pontos importantes do trabalho pericial: 
1. Perito é o contador detentor de conhecimento técnico e científico, 
regularmente registrado em Conselho Regional de Contabilidade e no 
Cadastro Nacional dos Peritos Contábeis, que exerce a atividade pericial 
de forma pessoal ou por meio de órgão técnico ou científico, com as 
seguintes denominações: 
(a) perito do juízo é o contador nomeado pelo poder judiciário para 
exercício da perícia contábil; 
(b) perito arbitral é o contador nomeado em arbitragem para exercício 
da perícia contábil; 
(c) perito oficial é o contador investido na função por lei e pertencente 
a órgão especial do Estado; 
(d) assistente técnico é o contador ou órgão técnico ou científico 
indicado e contratado pela parte em perícias contábeis. 
Segundo Hoog (2020), entre outras características, o perito é aquele que 
trabalha com independência e autonomia, seja em relação às partes ou ao juiz. O 
autor ainda observa que qualidades mínimas necessárias à função, além do 
bacharelado em Ciências Contábeis e exames da área: 
• inegável capacidade científica e tecnológica; 
• pública e notória especialização; e 
• dever ético de iluminar os leigos em relação à matéria examinada. 
 
 
3 
O autor conclui: “o perito é o olho tecnológico-científico do magistrado, a 
mão longa da justiça, enfim, o apoio científico ao ilustre condutor judicial” (Hoog, 
2020, p. 111). 
Uma vez que esse profissional irá trabalhar com situações de resolução de 
lide, ele precisa, do ponto de vista técnico, observar outras características, 
essenciais à sua rotina, conforme disposto no CEPC (CFC, 2019): 
• princípios e valores éticas; 
• observações de ordenamento moral; e 
• capacidade profissional adequada. 
A capacidade técnica para atuar na área está ligada, conforme Sá (2019), 
à obtenção do título de Bacharel de Ciências Contábeis, ao respectivo teste do 
Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e ao registro no Conselho Regional de 
Contabilidade (CRC). 
Entretanto, essas são questões básicas, já que, sem elas – e de forma 
adicional, sem o Exame de Qualificação Técnica (EQT), obrigatório para ingressar 
na carreira –, o profissional não estará habilitado a exercer a função de perito 
contábil. O autor destaca que o profissional que deseja alcançar tais qualificações 
deve atender aos seguintes atributos: 
• conhecimento teórico na área de ciências contábeis e afins; 
• conhecimento prático das tecnologias relacionadas com a contabilidade; 
• experiência em perícias e na área de atuação; 
• perspicácia; 
• perseverança; e 
• sagacidade. 
A capacidade ética é a que estabelece o Código de Ética Profissional do 
Contador e a Norma do Conselho Federal de Contabilidade. A 
capacidade moral é a que se estriba na virtude das atitudes pessoais do 
profissional. Entre as capacidades éticas, devem-se destacar 
basicamente a conduta do perito com seus colegas e o caráter de 
independência e veracidade que deve manter em seu parecer; havendo 
compromisso com a verdade e a virtude, a “independência”, entendo, é 
fator discutível. (Sá, 2019, p. 10) 
O atributo da capacidade técnica, conforme indica Sá (2019), surge no 
CEPC (CFC, 2019). De acordo com essa norma, o profissional deve exercer a 
profissão com zelo, diligência, honestidade e capacidade técnica. 
 
 
4 
Além disso, e ainda de acordo com o CFC (2019), é necessário observar 
as normas brasileiras de contabilidade e demais normas vigentes. O profissional 
ainda deverá resguardar o interesse público dos seus clientes e/ou empregadores, 
sempre atento à dignidade da classe contábil. 
É preciso ainda observar situações técnicas com conotações morais, as 
quais, conforme Palombo (2012), devem ser entendidas a partir do fato de que o 
profissional que atua na perícia precisa estar imbuído da responsabilidade de 
autocrítica e disciplina. 
Tais requisitos devem ser observados tendo em vista o impacto 
socioeconômico da carreira, já que do profissional dependem decisões 
importantes, relacionadas com a vida e com situações valiosas para os indivíduos, 
implicando em diversas consequências. 
O autor ainda afirma, em relação ao trabalho do profissional, que a 
“responsabilidade inerente à função pericial determina que este deve buscar 
educar-se continuamente. Educação contínua é, assim, estudo permanente de 
sua ciência e preparo consciente e permanente para atuar” (Palombo, 2012, p. 
61). 
De forma adicional, o profissional, além das questões éticas e do processo 
de educação continuada, deverá se preocupar com sua responsabilidade civil e 
penal. Conforme Hoog (2014), caso tais aspectos não sejam observados, podem 
culminar em multas, indenizações e inabilitação. 
A inabilitação, de acordo com o CPC (Brasil, 2015), está ligada às seguintes 
características: 
Art. 158. O perito que, por dolo ou culpa, prestar informações inverídicas 
responderá pelos prejuízos que causar à parte e ficará inabilitado para 
atuar em outras perícias no prazo de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, 
independentemente das demais sanções previstas em lei, devendo o juiz 
comunicar o fato ao respectivo órgão de classe para adoção das 
medidas que entender cabíveis. 
Palombo (2012) confirma esse fato, afirmando que a responsabilidade civil 
está atrelada ao cumprimento das obrigações da profissão, e que o profissional 
pode sofrer punições para os seguintes casos: 
• prazos da perícia judicial ou extrajudicial; 
• responsabilidade de informações prestadas ligadas ao método utilizado 
para a emissão de laudo pericial; 
 
 
5 
• explicações exigidas, caso necessário, para autoridades competentes, 
juízes ou ainda CFC; 
• uso de cautela e cuidado na execução dos trabalhos; 
• celeridade nos processos, eficiência e economicidade e aplicação de 
demais princípios para garantir a agilidade dos processos; e 
• suscetibilidade a críticas e, caso necessário, disponibilidade para rever e 
refazer trabalhos, de acordo com as necessidades do que foi requisitado. 
Outro ponto é a qualidade, nos aspectos de objetividade, precisão, clareza, 
fidelidade, concisão, confiabilidade, satisfação de finalidade e outros fatores que 
permitem que o trabalho seja cumprido da forma mais adequada. 
Segundo Palombo (2012), outro ponto primordial é a responsabilidade 
jurídica formal, ligada ao conhecimento da legislação pertinente, além de áreas 
que apresentam relação com a matéria analisada. 
O novo Código de Processo Civil (Brasil, 2015) delimita: “Art. 156. O juiz 
será assistido por perito quando a prova do fato depender de conhecimento 
técnico ou científico”. 
Henrique e Soares (2015) comentam que a perícia, a exemplo do que 
ocorre com a auditoria, trabalha, em diversos momentos, com a confirmação de 
registros contábeis. Entretanto, de acordo com os autores,no caso da perícia, o 
foco é a verificação de cálculos, uma vez que ela é usada como prova para auxiliar 
o juiz, sendo às vezes usada pelas partes. 
É preciso, assim, estar atento ao fato de que a perícia não se confunde com 
a auditoria. A primeira visa entender a acuracidade de registros e cálculos, valores 
de contratos e outras questões materiais; já a segunda está ligada à fidedignidade 
das demonstrações contábeis ou à sua adequação às normas vigentes. 
Logo, entende-se que o profissional deverá se preocupar, do ponto de vista 
técnico, com uma diversidade de aspectos, para que possa desempenhar a sua 
função de maneira adequada. 
TEMA 2 – NORMAS PROFISSIONAIS APLICADAS À FUNÇÃO PERICIAL 
O profissional que atua na área de perícia precisa observar, além de 
questões técnicas e outras que influenciam a rotina de seu trabalho, as regras que 
norteiam o seu comportamento de forma direta. 
 
 
6 
Em certas situações, o perito enfrenta impedimentos para a realização de 
trabalhos – ou seja, não pode aceitar a designação do juiz, já que tem algum 
envolvimento com as partes, ou ainda por conta de outra questão que pode 
influenciar o seu julgamento. Tais situações estão previstas na NBC PP 01 (CFC, 
2020). Assim, quando o perito é amigo ou inimigo íntimo das partes, ele precisará 
declarar o fato ao juiz, o que implica suspeição ou impedimento legal, de acordo 
com a situação verificada. 
Vejamos outras possibilidades que levam a tal situação (CFC, 2020): 
SUSPEIÇÃO E IMPEDIMENTO LEGAL 
[...] 
(a) ser devedor ou credor em mora de qualquer das partes, dos seus 
cônjuges, de parentes destes em linha reta ou em linha colateral até o 
terceiro grau ou entidades das quais esses façam parte de seu quadro 
societário ou de direção; 
(b) ser herdeiro presuntivo ou donatário de alguma das partes ou dos 
seus cônjuges; 
(c) ser parceiro, empregador ou empregado de uma das partes; 
(d) aconselhar, de alguma forma, parte envolvida no litígio acerca do 
objeto da discussão; e 
(e) houver qualquer interesse no julgamento da causa em favor de 
uma das partes. [...] 
1. O perito pode ainda declarar-se suspeito por motivo de foro íntimo. 
Destaca-se a questão da suspeição e do impedimento, já que o perito é um 
profissional que executa atividade de destaque na sociedade. De acordo com Sá 
(2019), é preciso lembrar que o perito desempenha a função de auxiliar da justiça, 
sendo um dos pilares da sociedade no Poder Judiciário. 
A mesma norma citada aborda ainda o zelo na realização dos trabalhos, ou 
seja, o cuidado que o profissional deve ter na realização das suas atividades 
(CFC, 2020). Outros temas da norma estão ligados à realização dos trabalhos e 
à postura do perito em si. 
Enquanto auxiliar da justiça o perito é um profissional designado pelo juiz. 
Ele também poderá atuar como assistente técnico, junto com a parte envolvida no 
caso que está sendo discutido. No primeiro contexto, é elaborado e apresentado 
um laudo para o juiz; no segundo, um parecer técnico. 
O perito precisa observar a NBC PP 02 (CFC, 2016a), como condição 
prévia à entrada nesse tipo de profissão, uma vez que essa norma dispõe sobre 
o exame de qualificação técnica para o perito contábil. Segundo a NBC PP 02 
(CFC, 2016a): “1. O Exame de Qualificação Técnica (EQT) para perito contábil 
tem por objetivo aferir o nível de conhecimento e a competência técnico-
 
 
7 
profissional necessários ao contador que pretende atuar na atividade de perícia 
contábil”. 
Os preceitos éticos disponíveis no CEPC (CFC, 2019) também devem ser 
observados rotineiramente durante o processo de aceitação e elaboração, e 
também após os trabalhos, já que envolvem, por exemplo, as relações com a 
classe contábil e os deveres decorrentes da convivência. 
18. O contador deve, em relação aos colegas, observar as seguintes 
normas de conduta: 
(a) abster-se de fazer referências prejudiciais ou de qualquer modo 
desabonadoras; 
(b) abster-se da aceitação de encargo profissional em substituição a 
colega que dele tenha desistido para preservar a dignidade ou os 
interesses da profissão ou da classe, desde que permaneçam as 
mesmas condições que ditaram o referido procedimento; 
(c) jamais se apropriar de trabalhos, iniciativas ou de soluções 
encontradas por colegas, que deles não tenha participado, 
apresentando-os como próprios; e 
(d) evitar desentendimentos com o colega que substituir ou com o seu 
substituto no exercício profissional. (CFC, 2019) 
Entendemos, assim, a complexidade do trabalho de perito contábil e a 
necessidade constante de observar as normas, não apenas aquelas relativas à 
pessoa do perito, mas também outras que regram o seu trabalho de forma geral. 
TEMA 3 – NORMAS LEGAIS 
O desenvolvimento do trabalho pericial, segundo Palombo (2012), é 
permeado por uma série de normas, regras e princípios. Segundo o autor, as 
normas ou leis operacionalizam a matéria pericial. Além disso, indicam um plano 
de procedimentos que deve ser seguido. 
O profissional da área deve estar atento ao novo Código de Processo Civil 
(Brasil, 2015) e também ao Código Civil (Brasil, 2002), normas que apresentam 
aspectos relacionados à justiça, ao andamento de processos e à necessidade de 
um perito, entre outros fatores. 
De acordo com o CPC (Brasil, 2015), o perito judicial se equipara a um 
servidor público, pois atua como auxiliar da justiça. Assim, deverá também estar 
atento a pontos específicos da Constituição Federal Brasileira (CF) (Brasil, 1988), 
que impactam a realização do seu trabalho na justiça. Entre eles, destacamos: 
• Princípio da dignidade da pessoa humana: ligado à proteção da pessoa 
humana contra qualquer constrangimento. Quando da observação desse 
princípio, é preciso considerar a limitação do trabalho do perito, já que ele 
 
 
8 
deve preservar a dignidade de todos os envolvidos e promover condições 
que facilitem o exercício da cidadania, a produção de defesa e o seu uso 
para a prova de perícia. Com isso, o profissional da área deve respeitar a 
dignidade dos envolvidos e a liberdade de fazer provas dos indivíduos. 
• Princípio da impessoalidade: existem condutas obrigatórias que podem 
conduzir ao favoritismo. Esse princípio também servirá para orientar a 
interpretação de outras normas já utilizadas. 
• Princípio da moralidade: ligado a questões de decoro, confiança e boa-fé. 
Para que esse princípio possa ser aplicado, deve imperar a ética, além da 
moralidade, que deverá ser empregada na aplicação de meios corretos de 
investigação na perícia. Tal princípio demanda que nenhuma conduta 
inaceitável (considerando ainda condutas capazes de transgredir a ética) 
seja aceita. Para isso, é necessário também adotar princípios ligados à 
própria ciência contábil, considerando os aspectos econômicos envolvidos, 
além de outras relações que permeiam o desenvolvimento da perícia. 
• Princípio da eficiência: a observância desse princípio tem conexão com 
situações burocráticas ligadas ao contexto, que deverão ser sanadas com 
a ajuda do trabalho do perito. Para isso, o profissional deve buscar 
alternativas que tragam resultados positivos, buscando gastar menos 
recursos, sempre considerando os melhores desfechos. 
Os profissionais da área precisam também se basear no princípio da 
razoabilidade em seus julgamentos. Segundo Hoog (2017), na intepretação dos 
fatos devem ser observadas situações rotineiras, e não extraordinárias, 
considerando a exceção como base de decisão. 
Outro princípio destacado pelo autor é a definição de temporalidade para a 
avaliação e o julgamento de itens. Isso ocorre quando o perito avalia um ativo, por 
exemplo, de modo que precisa definir um valor, quando não existem bases 
possíveis ou confiáveis de atribuição ao bem. 
A proporcionalidade deve ser observada como princípio pelo perito nas 
escolhas de métodos ou métricas adequados para a elaboração e a apresentação 
de trabalhos. 
Outro pontoobservado é o princípio da probabilidade, ligado à estatística e 
à contabilidade. Tais aspectos apontam para possibilidades, mas não permitem 
certeza completa em relação à matéria julgada, o que gera, em algumas 
 
 
9 
situações, dúvidas razoáveis, que deverão ser evidenciadas pelo profissional 
(Hoog, 2017). 
Por outro lado, é preciso que o perito observe, além das normas voltadas 
ao quesito pessoal, princípios e outras normas correlatas, que pautam o trabalho 
o profissional contábil, como a NBC TP 01 – Perícia Contábil (CFC, 2016b), ligada 
aos procedimentos técnicos-científicos de realização de trabalhos na área. Essa 
norma trata da questão dos objetivos do planejamento da perícia, passando pelos 
procedimentos necessários para que o profissional possa prestar seus serviços 
de forma adequada, de acordo com os tipos de clientes, sejam eles as partes ou 
o judiciário. 
Os profissionais devem estar atentos às normas legais específicas das 
áreas em que vão atuar. Tal observação é essencial porque, segundo Dias da 
Costa (2017), existe um impedimento técnico-científico. Segundo o autor, tal 
impedimento ocorre quando o profissional desconhece a matéria que está sendo 
periciada. Nesses casos, ele poderá ser desqualificado da execução do trabalho. 
Isso ocorre não só na área da perícia, mas também na auditoria, por 
exemplo, quando são necessárias alta especialização e especificidade em relação 
a determinados assuntos. Dessa forma, caso o perito deseje atuar na área 
trabalhista, precisará de conhecimentos ligados a esse âmbito, considerando que 
é sempre necessário dominar o campo de atuação para poder atuar nessas 
relações. 
No caso, por exemplo, das sociedades anônimas, para o cálculo de 
apuração de haveres ou ainda de outros valores relacionados, os peritos devem 
conhecer a Lei n. 6.404 (Brasil, 1976), que normatiza esse tipo de organização, 
bem como outras normas correlatas. Nesse contexto, o perito precisa conhecer 
alguns conceitos complexos, como é o caso do fundo de comércio, ligado a 
tangíveis e intangíveis que são utilizados para a atividade da organização. 
Outra questão que pode surgir, e que requer conhecimentos do 
profissional, é a determinação de intangíveis, como marcas e patentes goodwill, 
que não apresentam substância corpórea, mas que são verificados pela perícia, 
o que requer amplo conhecimento de normas específicas. 
Assim, é possível entender que existe uma multiplicidade de normas legais 
que precisam ser observadas pelos profissionais. De acordo com cada situação, 
deve ser aplicada a característica da lide ou da matéria que está sendo periciada. 
 
 
10 
TEMA 4 – PERÍCIA JUDICIAL E EXTRAJUDICIAL 
Palombo (2012) define que a perícia é um instrumento com espécies 
distintas, que podem ser identificadas e definidas de acordo com o ambiente. Para 
o autor, tais ambientes delineiam tanto as características intrínsecas e como 
determinantes tecnológicas envolvidas. 
É muito comum os menos afeitos confundirem as espécies de perícia 
por sua manifestação na realidade concreta: as espécies de laudo. 
Tratando-se, como se pode verificar por dedução, de coisas 
completamente distintas no plano doutrinário, é que – para evitar esta 
armadilha mental – estamos definindo as espécies segundo os 
ambientes de atuação. (Palombo, 2012, p. 40) 
O autor mostra que a perícia pode ocorrer, por exemplo, nas seguintes 
situações: 
• ambiente judicial; 
• ambiente semijudicial; 
• ambiente extrajudicial; e 
• ambiente arbitral. 
Filho (2020) complementa o raciocínio, relatando que a perícia judicial 
ocorre sob a tutela do judiciário. No caso da extrajudicial, ela pode ser 
caracterizada pelo âmbito arbitral, estatal ou de forma voluntária. 
A arbitral, por sua vez, tem legislação própria. As perícias do tipo oficial e 
estatal são executadas em órgãos do Estado, enquanto a voluntária é requisitada 
pelas partes, em comum acordo ou por vontade de uma delas. 
A perícia judicial contábil pode ser entendida, entre outras definições, como 
aquela solicitada pelo juiz para a resolução de um determinado conflito. Logo, está 
atrelada a um elemento de prova. 
Segundo Sá (2019), a perícia nessa esfera pode ser exemplificada pela 
verificação do ponto de vista econômico-financeiro de uma empresa, para que o 
juiz possa determinar o processo de recuperação judicial requisitado. 
Filho (2020) define que a perícia judicial, administrada pelo poder judiciário, 
segue trâmites e procedimentos pertinentes, bem como legislação, normas e 
outros princípios próprios ligados à justiça. 
O trabalho pericial é realizado por um perito, profissional nomeado e de 
confiança do juiz. A perícia judicial é uma das modalidades de prova. 
Nesse sentido, o trabalho pericial pode ser requisitado pelos sujeitos 
ativo e passivo que compõem um processo e também pode ser 
 
 
11 
determinado de ofício pelo próprio juiz que conduz o litígio. (Filho, 2020, 
p. 24) 
O arcabouço teórico, ou ainda a determinação para esse tipo de perícia, 
constam no CPC (Brasil, 2015). 
No caso de perícia semijudicial, conforme Palombo (2012), existe um 
aparato institucional do Estado, que ocorre fora do Poder Judiciário. A finalidade 
é que seja meio de prova para ordenamentos jurídicos. A perícia pode ser dividida 
em tipos: 
• Policial – utilizada em inquéritos; 
• Parlamentar – ocorre em comissões parlamentares ou ainda inquéritos 
especiais; e 
• Administrativo-tributária – ligada à administração pública tributária ou ainda 
a conselhos de contribuintes. 
A perícia também pode ocorrer sem a existência de conflito. Nesses casos, 
ela é considera extrajudicial. O produto final da perícia é o laudo. Ela pode ser 
pedida por diferentes participantes, entre os quais destacamos: o juiz, as partes, 
pessoas físicas ou jurídicas. Assim, de acordo com a causa, observando os 
implicados, ou ainda o juiz, a perícia poderá ser requerida. 
Palombo (2012) define a perícia extrajudicial como aquela realizada fora do 
estado, ou ainda escolhida entre entes físicos ou jurídicos particulares privados. 
Entende-se, nessa situação, que inexiste submissão a outra pessoa para a 
arbitramento da matéria que está sendo julgada – no caso, não há necessidade 
de juiz. 
Scherrer (2019) afirma que, conforme o nome indica, a perícia extrajudicial 
não tem ligação com o sistema judiciário brasileiro. Porém, o autor relata que não 
existe qualquer impedimento do uso de pareceres elaborados por perito. Eles 
podem ser utilizados, caso necessário, em processos judiciais. Ainda segundo o 
autor, podem ser um reforço para o caso concreto, caso seja aplicado. 
O autor ainda diferencia dois tipos de perícia, afirmando que a judicial tem 
início a partir de um litígio anterior, enquanto a extrajudicial parte da premissa de 
resolução fora do ambiente jurídico. 
Scherrer (2019) também observa que, sempre que possível, é importante 
cumprir as mesmas etapas que são observadas na perícia judicial, já que, 
necessitando do laudo, o profissional deverá observar o conteúdo da legislação 
vigente. 
 
 
12 
Com isso, entende-se que as relações, sejam elas interpessoais ou 
envolvendo profissionais e consumo, podem acarretar conflitos ou dúvidas. Com 
isso, a perícia extrajudicial poderá ser utilizada como uma das formas de 
resolução dessas situações. 
A perícia extrajudicial ainda pode ser dividida em diferentes tipos (Palombo, 
2012). 
• Perícias demonstrativas: são elaboradas basicamente com a finalidade de 
demonstrar se o fato apresentado na consulta é verdadeiro ou não. Pode 
ser utilizada, por exemplo, para cálculos e para a apuração de patrimônio 
em caso de dissolução de sociedades. 
• Perícias discriminativas: caso exista matéria duvidosa ou conflituosa, pode 
ser aplicada para a discriminação de valores. Pode ser usada para 
apresentar e discriminar valores de contas e outros itens em uma empresa. 
• Períciascomprobatórias: no caso de desconfiança em relação a eventuais 
fraudes, erros ou desvios, esse tipo de perícia auxilia no entendimento de 
cada uma das situações apresentadas. 
Moura (2020) apresenta alguns exemplos de perícia extrajudicial: 
• cálculos de partilhas de bens entre sócios; 
• reavaliações patrimoniais; 
• revisões de cláusulas contratuais; 
• cálculos envolvendo patrimônio líquido; e 
• divórcio. 
O autor afirma que o profissional é contratado nessas e em outras situações 
para determinar condições, valores e outros aspectos exigidos, de acordo com o 
caso analisado. A perícia, em algumas situações, pode ser a única forma de 
desenvolver uma prova eficaz sobre questões que são discutidas durante uma 
determinada ação. 
Quando o perito realiza função extrajudicial, conforme Ornelas (2011), ele 
é contratado de forma privada. Assim, poderá negociar de forma livre os seus 
honorários e a forma de pagamento. A perícia extrajudicial é um procedimento 
diferente da perícia judicial, já que apresenta valores e formas de pagamento 
delimitados pelo juiz. De acordo com a NBC PP 01 (CFC, 2020), devem ser 
observadas as seguintes características: “27. Na perícia extrajudicial, o perito 
deve estipular os prazos necessários para a execução dos trabalhos e a descrição 
 
 
13 
dos serviços a executar na proposta de trabalho e honorários, e posteriormente, 
no contrato de prestação de serviços firmado com o contratante”. 
No quadro a seguir, você confere um modelo de contrato de honorários 
para a perícia extrajudicial, que pode ser utilizado pelos profissionais da área para 
a prestação de serviços e a cobrança posterior. 
Quadro 1 – Modelo de contrato de honorários de perícia extrajudicial 
Rio de Janeiro, dia, mês e ano 
Ilmos. Srs. 
Diretores de 
SÓ PARTICIPAÇÕES LTDA. 
VITÓRIA – ES 
Prezados senhores, 
Na qualidade de perito, e conforme solicitação, viemos apresentar-lhes proposta de prestação de 
serviços para apuração de haveres do sócio _________ que pretende se afastar dessa sociedade, 
com data de ___/___/___. 
Nossos honorários profissionais, para todos os trabalhos que o caso requer, estão fixados em R$ 
______(_____), pagáveis da seguinte forma: 
R$ ______ na aprovação dessa proposta; e 
R$ ______ por ocasião da entrega do laudo pericial. 
A aceitação das condições constantes da presente proposta poderá ser dada por correspondência 
de V.Sas. ou pelo simples “de acordo”, data e assinatura da cópia desta. 
Atenciosamente, 
Perito 
Fonte: Elaborado com base em Moura, 2020, p. 54. 
Neste modelo, é definida a característica do serviço prestado, ou seja, a 
apuração de haveres, além de outros detalhes ligados a aspectos financeiros da 
proposta, que servem de subsídio para o trabalho do profissional da área. A 
perícia também ocorre na forma arbitral, quando realizada no juízo arbitral, que é 
uma instância probatória criada pela vontade das partes (Palombo, 2012). Ainda 
segundo o autor, ela se divide ainda em probante e decisória, utilizando como 
meio de prova o juízo arbitral ou ainda subsidiando a convicção do árbitro. 
Apesar de ocorrer fora do âmbito do Estado, a perícia realizada no juízo 
arbitral é diferenciada em relação aos outros tipos observados, não sendo 
considerada extrajudicial. Ela apresenta, inclusive, legislação própria: a Lei n. 
9.307 (Brasil, 1996), responsável pela instituição de um novo tipo de perícia no 
quadro normativo brasileiro: a arbitragem. 
Na arbitragem, é necessário que ocorra a inclusão em contratos, de 
maneira prévia, de determinados procedimentos. O trecho pertinente permitirá a 
execução da atividade no caso de controvérsias. 
De acordo com a Lei n. 9.307 (Brasil, 1996), qualquer pessoa, capaz e de 
confiança, pode atuar como árbitro. Logo, o perito contábil poderá ser indicado 
 
 
14 
como tal devido por conta de seus conhecimentos teóricos e práticos, 
principalmente em questões relacionadas a conflitos que envolvem o patrimônio. 
Observa-se que a nomeação do árbitro precisa obedecer a algumas 
características (Brasil, 1996): 
Art. 13. Pode ser árbitro qualquer pessoa capaz e que tenha a confiança 
das partes. [...] 
Art. 14. Estão impedidos de funcionar como árbitros as pessoas que 
tenham, com as partes ou com o litígio que lhes for submetido, algumas 
das relações que caracterizam os casos de impedimento ou suspeição 
de juízes, aplicando-se-lhes, no que couber, os mesmos deveres e 
responsabilidades, conforme previsto no Código de Processo Civil. 
Nota-se que essa não é uma prerrogativa exclusiva dos bacharéis em 
Ciências Contábeis, ao contrário da perícia contábil. Para exercer a função de 
árbitro, é necessário apenas conhecimento e não impedimento. Ainda assim, 
entende-se que se trata de mais uma possibilidade de mercado para os 
profissionais da área, já que eles atuam na resolução de conflitos de forma 
costumeira. 
TEMA 5 – ESTUDO DE CASO 
Uma empresa limitada era formada por dois sócios. Todas as suas 
atividades estavam em dia. Os sócios projetavam o crescimento e a continuidade 
dos negócios por diversos anos, com a ideia de expandir a organização por 
diversos estados do Brasil. 
Após uma cirurgia, um dos dois sócios faleceu, e o outro acabou ficando 
sozinho, esperando os trâmites legais para resolver a situação. O sócio falecido 
tinha um filho, maior de idade e capaz. Seguindo a previsão do contrato social, o 
filho assumiu a parte da empresa, de acordo com as exigências legais. Porém, ele 
não tinha habilidade, nem interesse em continuar com o negócio do pai. Dessa 
forma, o sócio remanescente, também observando os preceitos normativos, 
ofereceu uma determinada quantia pela parte do herdeiro na empresa, com base 
agora na falta que o sócio faria, e ainda em outras características que entendeu 
justas para o cálculo. 
O filho, mesmo não tendo interesse e não dominando a questão do 
negócio, entendeu que o valor não era justo, de modo que fez uma 
contraproposta, que foi considerada muito alta pelo sócio. Afinal, com o 
falecimento do outro sócio, ele teria que arcar com gastos inesperados caso 
 
 
15 
quisesse continuar com a expansão do negócio, uma vez que agora não tinha 
mais um parceiro de negócios, que era o seu principal investidor. 
Assim, os dois acabaram discordando sobre o valor. Antes de ingressarem 
em um processo judicial, que poderia levar anos e ainda desgastar ainda mais o 
patrimônio de ambos, eles concordaram, de forma amigável, em utilizar os 
serviços de um perito contábil. Compreenderam que o uso da perícia, nesse caso, 
poderia ajudá-los a encontrar um valor adequado para ambas as partes. O perito 
solicitou uma série de documentos e demonstrações financeiras; fez cálculos, 
determinou situações em relação ao fundo de comércio, observou condições de 
mercado, índices e outras análises capazes de fundamentar a execução do seu 
trabalho de perícia. O perito também fez entrevistas e procurou entender o projeto 
de expansão da organização, agora parado devido ao falecimento do outro sócio. 
Depois desse processo, ele emitiu um documento que apurava o valor justo 
da parte remanescente da empresa. O sócio quanto o herdeiro concordaram com 
o valor. Assim, após a contratação do perito, foi possível resolver a situação, de 
forma rápida e amigável, com a determinação de um valor considerado justo para 
ambos. 
 
 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
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Legislativo, Brasília, DF, 17 mar. 2015. 
BRASIL. Lei n. 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Diário Oficial da União, Poder 
Legislativo, Brasília, DF, 16 dez. 1976. 
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