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LEI DO DIREITO AUTORAL de pesquisa. As estratégias de amostragem são, então, portadoras de uma parte ra- zoavelmente grande de imprevisível. Ora, este para falar como Rojtman (1980: 13), introduz uma espécie de dificuldade na descrição das diferentes amostras e na escolha de suas denominações. Em segundo lugar, é difí- Amostragem e pesquisa qualitativa: ensaio teórico cil, e mesmo impossível, descrever procedimento de amostragem, sem fazer refe- rência ao projeto de construção progressiva do objeto como um todo. ou e metodológico* de-se por que ainda não existe, ao menos que eu um estudo dando uma visão geral da amostra qualitativa, pois e mais simples no contexto de uma Álvaro P. Pires problemática unificada de pesquisa de entrevistas sobre as representações sociais", etc.) terceiro pesquisa qualitativa toma formas muito diversificadas, o que torna quase impossível um inventário de- talhado das diferentes adaptações da amostra aos diferentes objetos. Em quarto lu- Meu objetivo principal é fazer um ensaio metodológico sobre a amostragem gar, colocam-se dificuldades de ordem conceitual. Diversos critérios ou princípios nas pesquisas qualitativas em ciências sociais, mas também desejo contribuir para de amostragem (aqueles de saturação, diversificação, caso negativo, indução uma reorientação da maneira como a questão da amostragem em geral se apresenta tica, etc.) são formulados no contexto de pesquisas específicas, e depois retomados (nas pesquisas qualitativas ou quantitativas). Por isso, examinarei de mais perto as para servir a outros fins. Se, por um lado, esses usos variados indicam, certamente, noções de "amostra" e de "população", e tentarei propor uma concepção geral da a riqueza dos referidos princípios e a possibilidade de aplicá-los, aliás, de forma metodologia que não desqualifique nem um procedimento qualitativo, nem quan- criativa, eles criam, por outro lado, uma multiplicidade de sentidos que não são titativo. Certamente, será preciso ao que algumas questões aqui suscitadas pertinentes em todos os casos. Enfim, a pesquisa qualitativa utiliza, amiúde, uma grande variedade de dados (slice of heteróclitos no mais, que foram, às ve- chamam de debates e de desenvolvimentos posteriores. zes, obtidos por acaso, ou sem nenhum critério sistemático. Alguns pesquisadores A palavra "amostra" pode conter uma dupla significação. No sentido estrito ou até fazem a coleta de dados sem qualquer projeto específico, esperando que, um operacional, ela designa exclusivamente o resultado de um procedimento visando dia, eles possam servir para alguma coisa. A maioria dos estudos integra esses da- extrair uma parte de um todo bem determinado; no sentido amplo, ela designa o dos heteróclitos a um corpus empírico sistematicamente constituído, enquanto ou- resultado de qualquer operação visando constituir o corpus empírico de uma pes- tros se baseiam exclusiva e retrospectivamente nesse conjunto de dados impreciso É no âmbito deste segundo sentido que se deve entender aqui a referida pa- quanto à sua lógica de A arte do pesquisador consiste, assim, em saber ti- lavra. Assim compreendida, a noção de amostra concerne tanto às grandes investi- rar partido de seus dados; isto é, em construir satisfatoriamente seu problema de gações por questionário quanto às pesquisas referidas a um único indivíduo. Nós pesquisa e sua análise, a partir dos dados de que dispõe. É, portanto, fútil querer retornaremos a isso. construir critérios formais de amostragem. as considerações a se- Evidentemente, busco também atingir o objetivo pedagógico de dar uma visão guir só se aplicam aos conjuntos de dados sistematicamente constituídos. de conjunto dos tipos de amostras na pesquisa qualitativa, da forma mais clara Como eu já o havia mencionado, este estudo se apresenta, em grande parte, possível. Para facilitar a compreensão, eu os ilustrarei por meio de estudos empíri- como um ensaio e não se deve esperar que ele esgote o assunto. Por outro lado, ele cos. Entretanto, essa tarefa não é fácil, por várias razões. Em primeiro lugar, é pró- não é um catálogo de regras inflexíveis. É melhor concebê-lo como uma "caixa de prio da pesquisa qualitativa ser flexível e seus objetos, à medi- ferramentas", com a qual se estabelece uma espécie de diálogo, visando resolver os da que a pesquisa progride. Conseqüentemente, a amostra pode, às vezes, modifi- problemas de construção de uma boa pesquisa. car-se consideravelmente, no decorrer do processo, em relação ao delineamento 2. Tomo esta expressão clássica, "camadas ou fatias de dados", de Glaser e Strauss (1967: 65). * Agradeço imensamente, por seus comentários críticos a este texto, a Fernando Acosta, Jean-Pierre 3. A interessante pesquisa de Goffman (1974) sobre Les cadres de l'expérience ilustra bem essa situa- Deslauriers, Jocelyne Dorion, Lionel-Henri Groulx, Guy Houchon, Gilles Houle, Danielle Laberge, ção. Uma das principais fontes de seus dados consiste em anedotas tiradas da imprensa, tendo, apa- Anne Laperrière, Robert Mayer, Colette Parent, Martine Perrault e Jean Poupart. rentemente, pouco valor. Ele escreve a esse respeito: "Esses dados comportam uma fraqueza suple- mentar: eu os havia selecionado, ao longo dos anos, por felicidade, segundo critérios que permane- 1. Adaptei livremente, aqui, a definição de Rose (1982: 49), para quem a amostragem é "the selection cem misteriosos, que evoluíram com o tempo, e que eu não poderia encontrar mesmo se eu quises- of units for study" vez que ele também dá uma acepção ampla à sua definição. se" (GOFFMAN, 1974: 23). 155 154LEI DO DIREITO AUTORAL Explicitemos, desde o início, três premissas deste estudo. A primeira é que a quem todas as amostras qualitativas na categoria geral dita "amostra teórica", ou qualidade científica de uma pesquisa não depende do tipo de amostra, e também não "por escolha racional". Esta categoria se torna então, um mais da natureza dos dados (quantitativo ou qualitativo), mas sim do fato de ela ser, termo se presta também à confusão, pois existem amostras quantitativas por esco- no conjunto, "bem A segunda é que "as escolhas técnicas mais lha racional. pela cas' são inseparáveis das escolhas mais 'teóricas' de construção do objeto" (BOUR- No quantitativo, há tendência em valorizar mais as regras técnicas de amostra- DIEU, 1992: 197). A terceira é que a função da metodologia não consiste em ditar re- gem do que os princípios de adequação entre tipo de amostra e objeto da pes- ou gras absolutas de saber-fazer, mas principalmente em ajudar analista a refletir para quisa (BOURDIEU; adaptar o mais possível seus métodos, as modalidades de amostragem e a natureza inverso: enfatizam-se mais as relações do que as regras dos dados, ao objeto de sua pesquisa em via de construção. técnicas de amostragem. Até um certo essas Negli- genciar as regras técnicas no quantitativo pode deturpar ou falsear os resultados, 1. Questões teóricas e metodológicas gerais sobre a amostragem considerando-se as relações que a formação quantitativa mantém com a teoria es- Dois tipos de dados: as letras e os tatística. As regras técnicas adquirem, assim, grande importância. No qualitati- vo, considerando sua independência frente à teoria estatística, é a relação entre o Há duas grandes maneiras de produzir dados ou provas empíricas: o qualitativo objeto de estudo e o corpus empírico que conta mais. Grosso modo, no qualitati- e quantitativo. Creio que as diversas amostras devem ser apresentadas em fun- vo, os erros técnicos de amostragem acarretam problemas menos graves, ou mais ção dessa primeira escolha, no que concerne ao tratamento dos dados. Em lugar de fáceis de corrigir; mas, em contrapartida, deve-se manifestar uma vigilância cres- dizer, então, inicialmente, que há duas grandes modalidades de amostragem, a cente quanto às relações entre o objeto e corpus empírico. Certamente, pode-se probabilística (resultado aleatório) e a não-probabilística, metodologista deveria dizer que a reflexão técnica sobre a amostragem no quantitativo tende, quando se apontar que existem dois grandes tipos de dados ou provas. Depois disso, ele apre- a superestima, a esvaziar a importância do objeto; assim como a reflexão sobre o sentaria, para cada tipo, as diferentes modalidades de amostragem e as espécies de objeto no qualitativo tende, se superestimada, a esvaziar a importância de algu- amostras. Mas, por quê? mas regras técnicas. Tive a impressão de que esses riscos respectivos são alimen- Deve-se dizer que a importância conferida à probabilidade estatística, na pes- tados, em parte, pelos manuais de metodologia: uns negligenciam a reflexão so- quisa qualitativa, acarreta uma alteração de sentido e desqualifica, particularmen- bre o papel dos objetos, enquanto outros concedem pouco espaço aos critérios de te, a amostra qualitativa. Efetivamente, a amostragem probabilística foi tida como amostragem. Decorre daí a falsa impressão de que o procedimento quantitativo a forma por excelência de amostragem. Além disso, a amostra acidental, que é uma tem a vantagem de ser mais rigoroso, embora corra o risco de ser menos pertinen- forma inadequada para a pesquisa quantitativa, é, geralmente, colocada na catego- te; enquanto o procedimento qualitativo seria mais pertinente, ao preço, todavia, ria das amostras não-probabilísticas; daí, a sua desvalorização. Ora, ordenar as de uma falta de rigor. Porém, como o assinala Bourdieu (1992: 199), não se deve amostras qualitativas com as amostras quantitativas não-probabilísticas arrisca confundir rigidez com rigor. imprimir às primeiras a conotação negativa que se acabou de dar às últimas. A segunda razão é que a distinção é, talvez, Certamente, não é errado dizer que as pesquisas qualitativas constituem seu corpus empírico de uma maneira não-probabilística. Esta é a sua característica pertinente para os dados quantitativos, mas não é para os dados qualitativos. Para mais imediatamente visível. Contudo, não convém utilizar esse critério como estes últimos, a distinção fechada se faz entre a amostragem por caso único (single case) - por exemplo, um local, uma pessoa e a amostragem por casos múltiplos. princípio diretivo para a classificação geral das amostras. Deve-se refletir sobre o estatuto dos dados para falar em amostra; e não falar em amostra para refletir so- Enfim, a classificação usual não permite descrever convenientemente as prin- bre estatuto dos dados. Explorarei, então, a hipótese de que há, primeiramente, cipais espécies de amostras qualitativas. ocorre que se classifi- uma distinção estratégica a estabelecer entre a amostra qualitativa e a amostra quantitativa, antes de determinar as diferentes modalidades de amostragem para uma e para a outra. O objetivo principal dessa cisão é respeitar a lógica própria 4. Retomo, aqui, uma expressão de Bourdieu (1992: 57). Hamel (1993: 53) chamou atenção para a importância dessa observação, em relação questões metodológicas em geral, e também ao estudo aos dois tipos de construção. A figura 1 ilustra essa hipótese, ainda que ela possa de caso. ser alvo de desacordos na escolha das denominações, no número de possibilida- 5. Tomo essa expressão de meu colega Gilles Houle (1981), que a utilizou para designar, de maneira des apontadas, etc. figurada, o qualitativo e quantitativo. 156 157LEI DO DIREITO AUTORAL FIGURA 1 Dois grandes tipos de dados, diferentes modalidades de amostragem que queira conhecer as relações entre o pertencimento a uma organização e o sen- e diferentes tipos de amostras timento de impotência entre os estudantes Suponham ela tenha optado por uma pesquisa decidido retirar uma amostra de 400 estudantes da universidade X, em 1980, nos Estados Unidos. Trata-se de uma Amostra acidental Amostra de voluntários estrutura convencional, uma vez que ela construiu sua pesquisa por meio de uma Amostragem amostra (400 estudantes), retirada de uma empiricamente limitada ou Amostra por cotas não-probabilística Amostra por escolha racional universidade X, em 1980, nos Estados Unidos) Ela num Amostra por bola de neve ro momento, os resultados obtidos junto à sua amostra, ao resto dessa população O quantitativo bem determinada no tempo e no espaço. Tais pesquisas têm "dois patamares (os "números") ricos" sucessivos bem precisos: passa-se de uma amostra operacional A (definida Amostra aleatória simples como tal) a uma população P (igualmente definida como tal). Uma simples sonda- Amostra sistemática gem de opinião termina, geralmente, nesses dois patamares empíricos. Mas quan- Amostragem Amostra estratificada do esse modelo é completo, o que ocorre amiúde nas pesquisas científicas, há um probabilística Amostra por conglomerados segundo momento de generalização, ou um "terceiro patamar", durante o qual são Amostra areolar Dois grandes formuladas proposições de ordem teórica (passagem da população P a uma popu- tipos de lação, ao mesmo tempo, mais heurística e menos dependente do contexto de reali- dados zação da pesquisa). No exemplo dado, a estrutura está completa, porque, de um Amostra de ator, lado, a pesquisa comporta dois patamares empíricos, e, de outro lado, a pesquisa- Amostragem por Amostra de meio, dora busca também obter resultados teóricos (empiricamente fundamentados), caso único institucional ou geográfico que ultrapassam a sua população (a universidade X, em 1980, etc.). Esses resulta- Amostra de acontecimento dos se aplicariam, por exemplo, a todos os estudantes universitários nos Estados Unidos, e inclusive a todos os estudantes nos países ocidentais. No passado consagrou-se a expressão segundo a qual existe ciência do ge- O qualitativo Amostra por contraste para indicar esse projeto próprio à atividade científica de generalização (as "letras") Amostra por homogeneização teórica para além da população propriamente dita do pesquisador (de seu universo Amostra por contraste- de análise específico). Esses resultados heurísticos constituem uma outra forma de Amostragem por aprofundamento casos múltiplos generalização, que eu caracterizarei de analítica ou teórica. Com isso, quero dizer Amostra por contraste- ou multicasos) que ela ultrapassa os limites da descrição ou da explicação aplicadas unicamente à saturação população P, tal qual esta foi definida para fins de amostragem. Se a pesquisa for Amostra por busca do caso bem conduzida, esses resultados teóricos terão, certamente, um fundamento em- negativo pírico. Nesse sentido, eles são mais do que hipóteses a priori; eles são esclareci- mentos teóricos, empiricamente fundamentados, e virtualmente passíveis de se- As estruturas convencional e aberta de pesquisa rem aplicados noutro local. Evidentemente, quando se pressupõe sua pertinência, alhures, a base empírica desses esclarecimentos se torna menos potente. Ganha-se Um rápido exame de um determinado número de pesquisas nos leva a constatar no plano heurístico, mas perde-se no plano das nuanças empíricas. que alguns analistas empregam a noção de amostra e outros Esta diferença de lin- guagem é reveladora de duas estruturas-tipo da pesquisa empírica. Chamarei a primei- ra de estrutura fechada ou convencional, e a segunda, de estrutura aberta ou paradoxal. 6. Ver sobre isso as reflexões bastante pertinentes de Hamel (1993). Minha posição não é diferente da No primeiro modelo, a situação do pesquisador é tal que lhe é impossível pes- dele. Eu me limito a indicar que conhecimento científico visa a um acesso ao "global", que ultrapas- quisar toda a sua população e ele decide retirar dela uma amostra bem definida. sa não apenas a singularidade, mas também a "população" empírica da pesquisa propriamente dita. Entretanto, como o enfatiza Hamel, não se deve ver nessa máxima uma negação do singular: a socio- Tomemos um exemplo dado por Rose (1982: 49). Suponham uma pesquisadora logia não pode apreender seu objeto, a sociedade, em sua totalidade (p. 49-50), e o singular permite também esclarecer a globalidade (p. 52 e 72). 158 159LEI DO DIREITO AUTORAL A estrutura aberta é mais manifesta e difícil de caracterizar. Ela compreende O terceiro exemplo é a pesquisa qualitativa de Goffman (1961) sobre alguns grosso modo a pesquisa experimental ou quase experimental, os estudos de caso aspectos da vida social dos doentes Ela foi realizada principalmente único, e mesmo a situação-limite em que o pesquisador analisa (quantitativa ou Hospital St. Elisabeth, em Washington, durante um a maneira qualitativamente) toda a sua população do ponto de vista que lhe interessa. Para como o doente vivia subjetivamente suas relações com o meio hospitalar e bus- facilitar a compreensão, eu darei, primeiramente, três exemplos, e depois tentarei cou descrever fielmente essa situação, a partir do ponto de vista do próprio doen- te. Ele também destacou as propriedades as características sociológicas das ins- ou caracterizar a referida estrutura sob um ponto de vista metodológico. Porterfield e Gibbs (1960) realizaram uma pesquisa qualitativa sobre todas as tituições especializadas na vigilância das 955 pessoas, cujo suicídio foi oficialmente reconhecido na Nova entre não fala em amostra. Isto não surpreendente pois de 1946 e 1951. Os pesquisadores não falam em amostra (pois eles consideraram to- modo exaustivo, um universo de análise Hospital segundo a dos os casos), e sua pesquisa é apresentada por outros (ROSE, 1982: 58), como perspectiva que lhe interessa. Trata-se de uma abordagem total do local, no con- sendo referida a "toda a população" de casos (conhecidos), durante esse texto de um problema particular de pesquisa. Pode-se, então, igualmente dizer, Ora, como eles analisam toda a população, eles não têm necessidade de generalizar num sentido diferente dos dois precedentes, que ele pesquisou toda a sua popu- uma amostra operacional (alguns casos de suicídio entre 1946 e 1951) para a sua lação, pois, aqui também, não há propriamente "resto" empírico. Cobre-se tudo população (todos os casos de suicídio, durante esse período). E eles acreditam que no universo de análise que se pretende pesquisar. Evidentemente, o universo de seus resultados ultrapassam sua população P (o conjunto das 955 pessoas). Por te- análise como tal (o meio) é mais amplo do que o corpus empírico (observações fei- rem considerado todos os casos, eles não têm necessidade de fazer uma generaliza- tas), mas aquilo que não se viu resulta menos de uma parte da população não ob- ção empírica (de sua amostra para sua população), antes de proceder à generaliza- servada, do que de um "fora" da pesquisa. ção analítico-teórica: eles passam diretamente do nível empírico ao nível teórico. Digamos, então, abruptamente, que esse modelo aberto é caracterizado por Blau (1960) realizou uma pesquisa quantitativa quase experimental. Ele que- pesquisas que analisam, de certa forma, uma população na totalidade, e que pas- ria demonstrar que os valores sociais exercem uma coerção externa sobre os mem- sam diretamente de seu corpus empírico a um nível teórico global. Não há, aqui, bros de um grupo, independentemente dos valores interiorizados pelos dois patamares bem distintos ao nível empírico. Também não é surpreendente duos. Ele constrói seus dados a partir de 60 assistentes sociais de uma agência pú- que o pesquisador não apresente seus dados como passando de A a P, mas sim, blica de ajuda social e demonstra que existem efeitos estruturais. Ele também não que ele passe, de preferência, diretamente ou quase, dos dados (A ou P) ao pata- fala em amostra. Efetivamente, ele não pretendia e nem o mar teórico (universos gerais). O nível teórico toma a forma de um patamar úni- zar seus resultados para outros assistentes sociais da agência que não haviam sido ou de um continuum muito pouco balizado. Desde então, ao invés de descre- objeto da investigação. Ele queria mostrar que os efeitos estruturais existem, e ver procedimento de amostragem (não houve amostra, no sentido operacional pouco importa que se seja, ou não, um assistente social, e que se trabalhe, ou não, do termo), o analista descreve seu corpus empírico: ele especifica do que ele é em uma agência de ajuda social. Pode-se dizer (num sentido, sem dúvida, um pou- composto e quais são as suas características. Por certo, pode-se CO diferente) que ele pesquisou também toda a sua população, pois ele passa dire- imaginar um universo mais geral do qual essa população seria, por sua vez, uma tamente de seu corpus empírico ao patamar teórico (a demonstração da existência amostra. Daí paradoxo aparente da estrutura aberta: não existe aqui um proce- de efeitos estruturais). Do mesmo modo que Galileu para falar como Bourdieu dimento operacional de amostragem, porém pode-se dizer também que esse cor- (1992: 57) - "não teve necessidade de repetir, indefinidamente, a experiência do pus empírico constitui uma amostra, no sentido amplo. A noção de amostra inva- plano inclinado, para construir modelo da queda dos Blau não tinha ne- de a de população, e elas tendem a se sobrepor (ver a figura 2). O paradoxo se cessidade de repetir, alhures, sua demonstração com outras pessoas. deve também ao fato de que pesquisador dá a entender que ele pesquisou toda a sua população, que significa dizer que ele não tem necessidade de generalizar (para a sua população), mas, no entanto, ele produz, mesmo assim, uma (outra) forma de generalização (analítico-teórica). 7. É preciso deixar de lado a questão do período, porque esse, entre 1946 e 1951, não foi retirado, pe- los pesquisadores, como amostra (no sentido estrito) de um outro período mais amplo. 8. Ver Hamel (1993: 51), que valoriza essa passagem de Bourdieu, para enfatizar que um caso parti- cular, bem construído, deixa de ser particular. 160 161LEI DO DIREITO AUTORAL FIGURA 2 Pressente-se o problema: cada estrutura de pesquisa comporta uma diferente Duas estruturas-tipo de pesquisa idéia central de amostra. Daí a questão: existe uma idéia comum à amostra em sen- tido amplo? Em minha opinião, a idéia central de uma noção geral de amostra de- veria ser comum aos dois tipos de estrutura de pesquisa. Ela reside, assim, menos Estrutura convencional Estrutura aberta nas idéias parciais e conexas de seleção ou de totalidade - que me parecem, contu- ou "fechada" ou "paradoxal" do, inevitáveis, por sua vez, no número de situações do que na idéia de conside- ou rar uma pequena quantidade de coisa para esclarecer alguns aspectos Proposições ou Proposições ou Nível rais do problema: trata-se de pesquisar isto para basear um aquilo; é a idéia de ex- resultados teóricos resultados teóricos teórico trapolar, deslocar, transcender, colocar em ou ainda dar uma ou um es- clarecimento sobre alguma outra a ajuda de um de População (P) que possam se referir a isso. Pode-se ter uma idéia (ou um certo tipo de idéia) de Corpus empírico completo Nível uma sociedade de uma determinada época, por meio de um indivíduo que nela te- Amostra (A) (População) (sentido operacional empírico nha vivido; lançar uma luz sobre uma instituição, descrevendo um exemplo parti- ou estrito) cular ou localizado da mesma; examinar brevemente as características das pessoas que estão encarceradas, descrevendo a população de uma prisão (ou uma amostra Esse breve exame suscita uma questão: o que é uma amostra e o que é uma po- operacional desta população), etc. O objetivo da amostra (no sentido amplo) con- pulação? siste, portanto, em dar base a um conhecimento ou um questionamento, que ultra- passa os limites das unidades, e mesmo do universo de análise, servindo para pro- A noção de amostra duzi-lo. A bem dizer, não é porque se deve selecionar que se extrai uma amostra; e, inversamente, também não é porque se considera um conjunto completo localiza- Como nós o vimos, a noção de amostra salta aos olhos nas pesquisas com uma do que não se faz uma amostragem; é, antes, porque se fala mais que se transforma, estrutura convencional. Nesses casos, quando se sabe que não se pode apreender de qualquer modo, em amostra, aquilo sobre que se baseia para se falar a respei- tudo, a idéia de que se deve escolher ou selecionar uma parte do todo nos leva, auto- to. A observação sistemática visa fundamentar ou "documentar" alguns aspectos maticamente, a pensar em termos de amostra. Inversamente, quando se é levado a da realidade, que são, por sua vez, passíveis de se deslocar. A observação traz, por- pensar em uma amostra, associa-se esta noção essencialmente à idéia de escolha ou tanto, em si mesma os germes da amostragem; ou seja, a capacidade de ultrapassar de seleção. a si mesma. Persiste, todavia, no qualitativo e no quantitativo, uma tensão entre es- Em contrapartida, nas pesquisas com uma estrutura aberta, a idéia de amostra sas duas grandes estruturas-tipo de pesquisa, seja entre a estrutura na qual o pes- não vem naturalmente à mente. O analista designa, então, seu material pelas ex- quisador tem a nítida impressão de que ele faz uma amostragem, ou aquela em que pressões "corpus empírico", "população", "totalidade", "estudo-piloto", "estudo ele tem a impressão de tudo abranger. de caso", etc. Por quê? Talvez porque, na falta de um procedimento operacional de amostragem, a idéia de escolher ou selecionar não apareça como uma etapa essenci- A noção de população al da metodologia, ou concernente a ela. A idéia de seleção dos casos é, em parte, absorvida pela idéia da escolha do caso ou do objeto, ou neutralizada pela idéia de Para ilustrar meus objetivos, utilizarei livremente um bom exemplo dado por completude. O pesquisador sabe que deve fazer observações sistemáticas e perti- Beaud. Tomemos, diz ele, uma experiência banal: a preparação de um prato. Antes nentes acerca de uma ou de várias questões, mas também considera que pode abor- de servi-lo, dar o conjunto de seu material empírico. Certamente, todo pesquisador sabe que há um gesto que geralmente fazemos: nós o provamos. O próprio pode acrescentar outros conjuntos de material empírico, embora, no que diz res- princípio da sondagem e das técnicas que ele implica (dentre os quais, peito a um conjunto específico, ele tenha grosso modo considerado tudo em rela- o da amostragem) encontra-se assim formulado: nós colhemos infor- ção aos seus problemas de pesquisa. A idéia central que resulta é, então, aquela da mação sobre uma fração (amostra) do todo (população) que nós que- escolha do objeto, acompanhada daquela de totalidade da base empírica relativa- remos pesquisar [...] (BEAUD, 1984: 178). mente a enunciados teóricos (mais do que a idéia de seleção). 162 163LEI DO DIREITO AUTORAL Este exemplo constitui uma das maneiras mais pedagógicas de introduzir a população mais geral ainda. É que não existe, aqui, uma grande diferença entre questão da amostragem e de mostrar, como bem o ressalta Beaud (1984: 178), que nossa colherada de sopa e a panela inteira, para generalizar a essa população "nós todos fazemos amostragem, sem o saber". Provar um prato significa que "nós vel teórico. Degustando a colherada de sopa, nós degustamos ao tempo, a colhemos informação sobre uma fração (amostra) do todo (população) que nós que- sopa na panela e esse gênero de sopa de corações de palmitos em geral. Efetiva- remos pesquisar" (ibid.). Também se poderia dizer, num sentido mais amplo, que pro- mente, se mais tarde alguém nos perguntar se já provamos uma sopa de corações ou var um prato é obter "observações" para poder falar de alguma coisa. Mas, de que, de palmitos, responderemos que sem que significa dizer que: exatamente, pode-se falar? "Nós já examinamos uma colherada) ou uma (uma panela Ora, a noção de população apresenta uma dificuldade particular. Quando nós cheia) desse tipo de sopa". empregados: eletrônicos, mecânicos, retiramos uma amostra de nomes de pessoas de uma lista, sabemos, intuitivamen- Notemos que a panela, que aqui, te, que se repetirmos esta operação, as chances serão pequenas de obtermos exata- muito amplo, uma "amostra" dessa outra imensa população geral, mas não se trata de mente os mesmos nomes que da primeira vez. A idéia de uma certa relatividade na uma amostra operacional. Por quê? Porque nós não essa população geral composição interna da amostra aparece imediatamente. Em contrapartida, a noção diante de nós, sob a forma de uma lista, antes de extrairmos nossa "panela". Ao ex- de população, nossa lista de nomes, adquire geralmente a forma de um todo natu- trairmos nossa colherada, temos diante de nós a panela e, em princípio, todas as par- ral, de um "já tículas do caldo têm a mesma probabilidade de surgir em nossa colherada. Neste Se voltarmos ao exemplo do prato, parecerá evidente a todos nós que essa caso, temos uma amostra operacional; mas não no primeiro. É por isso que necessi- amostra que degustamos nos autoriza a falar do prato que está na panela. Podemos tamos de um quarto conceito, o do universo geral (que se situa ao nível teórico). dizer, por exemplo, se ele está demasiado salgado, ou não. A panela aparece, então, Pode-se, então, conceber a amostra e a população como sendo uma relação de naturalmente, como sendo a nossa população. Ora, se nosso objetivo é saber a quan- universos (da panela, das sopas de corações de palmitos, etc.) e dos proje- tidade de sal, a panela constitui efetivamente a nossa população, mas somente por- tos variáveis do conhecimento (verificar se está demasiado salgado, saber o que é que nossa finalidade, aqui, é a de saber se o prato está demasiado salgado, ou não. Efe- uma sopa de corações de palmitos, etc.). É dizer também que os conceitos de tivamente, não se deve perder de vista que "população" é um conceito, e não uma amostra e de população "vagueiam" ou se modificam em função de nosso projeto circunstância natural, e que os contornos deste conceito são dados pelas diferentes de conhecimento, o qual também muda de nível: passamos do nível empírico finalidades de nossa pesquisa. Evidentemente, se a finalidade é fazer uma estimati- consistindo em saber se nossa sopa na panela X, em tal dia, estava muito salgada va da quantidade de sal no prato, este último remete à população e toma a forma de ao nível teórico, visando dar-nos um conhecimento geral do que é uma sopa de co- uma fronteira natural, em razão inclusive da escolha que fazemos quanto ao que rações de palmitos (universo geral). queremos saber ou projetar como conhecimento. Aqui não temos a intenção, ao Uma última observação. Suponhamos que preparemos uma sopa e comamos menos num primeiro momento, de ir além da panela ou de nosso universo de aná- tudo sem pensar em prová-la previamente: pode-se dizer que tenhamos retirado lise (nível empírico): queremos apenas generalizar de nossa colherada (amostra) à uma amostra? Isso depende. Em primeiro lugar, é bastante provável que não te- panela (população). Chamemos isso de uma generalização empírica ou fechada. nhamos essa impressão, pois, em vez de provar para ter uma idéia do todo, nós Mas, que acontece se nós modificarmos nossos objetivos? simplesmente o comemos. nós não fazemos uma amostra- Suponhamos, agora, que esse prato é uma sopa de corações de palmitos e que gem. Em contrapartida, se começamos a explicar a outras pessoas, posteriormente, nós jamais tenhamos provado este tipo de sopa. O provar nos possibilita, então, em o que é um creme de corações de palmitos, com base nessa experiência, ele se torna uma amostra. Essa situação corresponde grosso modo de Goffman (1974), certos níveis, não somente dizer algo sobre a população figurada na panela (univer- que selecionou, ao longo dos anos, sem objetivo muito preciso, um material empí- de análise), como também sobre as sopas de corações de palmitos em geral, e rico heteróclito. No início, não era ainda uma amostra do que quer que fosse. Mais mesmo sobre as sopas, simplesmente. No que concerne a essa finalidade, o fato de tarde, esse material servindo de base para a sua pesquisa tornou-se, retroativamen- que a sopa seja demasiado salgada, ou não, é muito menos importante, senão insig- nificante. Essa outra "população" aquela de todas as sopas de corações de palmi- corresponde ao que Sjoberg e Nett (1968: 129-130) chamaram de universo ge- 9. Agradeço à minha colega Danielle Laberge, do departamento de sociologia da Universidade do ral. Tudo se passa, então, como se nossa colherada de sopa fosse, ao mesmo tempo, Québec em Montreal, por me haver sugerido essa expressão bastante adequada e sugestiva aos uma amostra da panela e uma amostra (no sentido amplo e não operacional) dessa meus objetivos. 164 165LEI DO DIREITO AUTORAL te, a sua amostra; o que significa dizer que Goffman adaptou seu objeto e seu dis- curso aos dados que havia coletado. Todos os reservados e protegidos Lei 9.610/1998. As noções de "universo de análise" e de "universo geral" Utilizei sem precisar devidamente as noções bastante importantes de "univer- Este pode ser ou SO de análise" e de "universo geral", propostas por Sjoberg e Nett (1968: 129-130), transmiti quais forenz meios e desenvolvidas por Rose (1982: 56-65). Para eles, o universo de análise corres- ponde à noção clássica de população (ao nível empírico); e universo geral, ao uni- empregad verso do ao qual a teoria se aplica ou se refere (ROSE, 1982: 56), ou seja, fotográficos ou quaisquer às outras "populações", ao nível teórico. No exemplo da sopa, a panela correspon- de ao universo de análise, enquanto o universo geral engloba o conjunto de so- pas de corações de palmitos. Esta última noção é muito importante, porque ela re- lativiza a noção operacional de população (universo de análise); ela não é mais vista como ponto final da pesquisa e é colocada, por sua vez, em relação com as finalida- des da pesquisa. Salientarei, agora, o fato de que o universo geral pode ser múltiplo e variável (universos gerais) e que a noção de universo de análise deve ser ligeiramen- te reformulada para melhor acomodar as pesquisas com uma estrutura aberta. Deve-se tomar a noção de universo de análise ao pé da letra: o universo sobre o qual o pesquisador trabalha, ou que ele tem ao seu alcance (a panela, a universidade X onde ele constrói a sua lista de estudantes, o hospital onde ele faz suas observa- ções, etc.). Essa maneira de conceituá-la permite incluir mais facilmente as duas estruturas de pesquisa: aquela segundo a qual se retira uma amostra operacional (estrutura fechada), e aquela segundo a qual se constitui um corpus empírico como uma totalidade particular (estrutura aberta). Pode-se dizer, então, que toda pesqui- sa empírica tem um universo de análise, mas que nem toda pesquisa empírica reti- ra uma amostra operacional. Assim, se o analista faz observações em um hospital, seu universo de análise é o hospital X, e não conjunto (impreciso) dos hospitais semelhantes. Estes últimos fazem parte dos universos gerais (campo de aplicação da teoria, ou dos resultados teóricos da pesquisa). Do mesmo modo, a exemplo de Porterfield e Gibbs (1960), se o analista estuda todos os casos de suicídio conheci- dos durante um período determinado, esta "lista" constitui o seu universo de aná- lise. No caso de uma pesquisa com uma estrutura fechada, o universo de análise se define como o "conjunto de todas as unidades empíricas que o pesquisador estabe- lece como a base de sua pesquisa e da qual ele retira uma amostra" (ROSE, 1982: 56). Por exemplo, a lista de todos os estudantes inscritos na universidade X, em tal país, em uma tal data, e a partir da qual retira-se uma amostra operacional. A figura 3 é baseada em Rose (1982: 65), mas foi desdobrada e transformada para dar conta das modificações propostas. 166LEI DO DIREITO AUTORAL Dois exemplos de estrutura convencional ou fechada A fim de fixar melhor essas idéias, vejamos dois exemplos de pesquisas com Todos os reservados e protegidos uma estrutura convencional de amostragem, uma quantitativa e a outra, qualitativa. Lei 9.610/1998 Retornemos, primeiramente, ao exemplo adaptado de Rose (1982: 50,56), so- bre a pesquisadora que quer conhecer as relações entre o pertencimento a uma or- Este arquiv pode ser ou ganização e o sentimento de impotência entre os estudantes. Pode-se encontrar aí transmitido quais forem os meios uma amostra de estudantes da universidade X, em 1980, uma população ao nível empregados eletrônicos, mecânicos, empírico determinada pela lista de todos os estudantes desta universidade, em 1980 (seu universo de análise), e uma ou várias populações ao nível teórico (seus no universos variáveis gerais). Tais universos gerais são, por exemplo, o conjunto dos estudantes nos Estados Unidos, nos países industrializados, ou, ainda, os estudan- tes em geral. O exemplo 1 da figura 4 resume a situação. Nesta figura, eu utilizo duas vezes, intencionalmente, conceito de população para mostrar que ele pode das se deslocar de um nível a outro e é variável (no sentido de que há várias populações gerais possíveis embutidas na noção de população no sentido estrito). O exemplo 2 é tirado da pesquisa qualitativa de Martel (1994) sobre as repre- sentações das mulheres vítimas de violência, em um diário montrealense, entre 1886 e 1989. Para constituir a amostra, ela delimitou dois blocos teoricamente im- de portantes de quatro anos cada qual, no início (1886-1889), e no final (1986-1989) de seu período global. Em princípio, todos os artigos de imprensa referentes ao seu objeto, durante esses dois poderiam ser considerados em vista da análise. Entretanto, ela aplicou o princípio de saturação, o que significa que ela não teve de completar a coleta dos dados para toda a duração desses dois blocos. Quando a informação se tornava claramente repetitiva, ela considerava que a in- formação para seu subperíodo estava saturada e que ela podia encerrar a coleta de dados para esse período. Numa segunda etapa, ela fez incursões intermitentes, mas sistemáticas, em todos os 20 anos (ou seja, em 1910, 1930, 1950 e 1970) para iden- tificar, se necessário, as mudanças nas representações. Para cada um desses anos, o princípio de saturação foi mais uma vez aplicado. Assim, a pesquisa comporta uma amostra (os artigos destacados), um universo de análise bem determinado (La Presse, entre 1886 e 1989) e também um ou vários universos gerais, uma vez que ela permite conhecer as representações das mulheres vítimas de violência, não so- mente no diário La Presse, mas também em Montreal e na sociedade quebequense em geral, etc. (ver o exemplo 2 da figura 4). Vê-se que, na estrutura fechada, os três conceitos (amostra, universo de análise, universo geral) são bem distintos uns dos outros, de um ponto de vista operacional. Essas duas pesquisas têm também uma estrutura completa: dois patamares empíri- cos (ou uma etapa intermediária bem marcada) e um terceiro patamar que ultrapassa seu universo de análise (a primeira "população"). Para construir satisfatoriamente 168LEI DO DIREITO AUTORAL sua pesquisa, os pesquisadores devem aqui, primeiramente, poder generalizar seus Dois exemplos de estrutura aberta ou paradoxal resultados no interior do próprio nível empírico. Isso significa, por exemplo, que reservados e protegidos Martel (1994) deve, num primeiro momento, passar dos artigos analisados à totali- Em sua pesquisa quantitativa, (1960) busca mostrar que existem efeitos dade dos artigos não-analisados do jornal La Presse (1886-1989), para que, depois, estruturais; isto é, que os valores de um pressões externas sobre seus membros, independentemente de seus valores interiorizados. Ele escolheu sua pesquisa possa produzir um esclarecimento teórico mais global sobre a percep- uma agência pública de ajuda social, situada em uma grande cidade ção das mulheres vítimas de violência na sociedade quebequense. ou relacionada à clientela urbana mais pobre. Durante um de observação na Notem que as pesquisas, tanto quantitativa como qualitativa, são obrigadas a agência, ele constatou que sociais são organizados em unidades de tornar mais flexível sua ligação com universo de análise, para produzir um co- cinco ou seis, sob a autoridade de um Osmembros de nhecimento heurístico. Mas, para que esses resultados teóricos sejam reconheci- ram entrevistados, com um total de 60 Blau não especifica se havia dos como tais (e não como hipóteses a priori), é preciso que a parte empírica seja outras unidades na agência e, em caso afirmativo, como essas 12 unidades foram "bem construída". As duas pesquisas fazem, primeiramente, uma generalização selecionadas. Em realidade, não se tem necessidade dessa informação. Pode-se empírica, mas uma o faz por meio de uma análise estatística, e a outra, por meio de dizer que se trata de uma amostra quantitativa não-probabilística por escolha ra- uma análise qualitativa. Pode-se designar essa generalização qualitativa pelo nome cional: Blau escolheu lugar da observação, as unidades e o número de unida- de indução empírico-analítica, para distingui-la, de um lado, da generalização em- des, em função dos critérios teóricos e metodológicos que ele havia fixado para pírico-estatística, e, de outro lado, da generalização teórica própria às duas pesqui- fazer a sua demonstração. sas. Nos dois casos, a generalização empírica é apenas uma etapa intermediária do Por suas finalidades teóricas, vê-se que ele não quer produzir nenhum conhe- processo global de generalização. Cada vez que se ultrapassa o nível empírico, pas- cimento sobre os órgãos públicos, em particular. Seu objeto corresponde aos efei- sa-se de uma amostra a uma população (universo de análise), e depois, desta popu- tos estruturais nos grupos em geral. Seus universos variáveis gerais são, portanto, lação a outras (universos variáveis gerais). Este segundo passo, o mais pertinente os grupos. Além disso, seu universo de análise a agência pública X de ajuda social para a teoria, apresenta uma particularidade: de um lado, ele depende da boa quali- não tem uma significação teórica para além do fato de servir de local para a sua dade da construção empírica, mas, de outro lado, ele é necessariamente menos pro- pesquisa. Seus dados não são uma amostra operacional da agência e nem mesmo se tegido pelo corpus empírico. Efetivamente, algumas variações em relação aos re- sabe se Blau pesquisou, ou não, todos os assistentes sociais. Mas, sabe-se que seu sultados são possíveis, quando se aplica esse conhecimento, alhures. Obtemos, corpus é composto de 60 assistentes e que sua finalidade teórica não impede de por meio desse conhecimento teórico empiricamente fundamentado, um conheci- fazer uma primeira generalização empírica (estatística) dos resultados a um res- mento empírico virtual relativamente a outros universos de análise. tante eventual e não-observado de seu universo de análise. Ele pode passar direta- mente ao nível teórico. Quando se diz que esse corpus é sua amostra, modifica-se o As pesquisas que apresentam uma estrutura convencional incompleta termi- sentido desta noção para lhe conferir uma acepção ampla: os 60 assistentes sociais nam bruscamente no universo de análise. Tal seria caso de uma investigação vi- são, assim, uma amostra dos universos gerais, e não de seu universo de análise sando apenas prognosticar a intenção de voto dos canadenses (P), a partir de uma (agência) exemplo 1 da figura 5]. amostra (A), em um momento bem determinado no tempo. O nível teórico é, por- O exemplo da pesquisa qualitativa de Goffman (1961) é menos unívoco. Após tanto, explicitamente ausente ou muito pobre, pois a pesquisa é guiada por uma fi- uma observação direta durante um ano em um hospital, ele destaca, entre outras nalidade descritiva simples, consistindo em querer representar satisfatoriamente, coisas, o que ele considera serem as características das instituições "totais". Por no plano do universo de análise, uma intenção de voto. Os pesquisadores estão exemplo, na vida social corrente, dispomos, geralmente, de três locais diferentes - conscientes de que os resultados são passíveis de modificação, a curto prazo, e não para dormir, para nos divertir e para trabalhar com parceiros diferentes, e sob visam atingir resultados teóricos (universo geral). Estes últimos são os únicos a ter autoridades diferentes; as instituições totais eliminam as fronteiras que separam uma capacidade de divagação: que eles perdem em precisão e em detalhes, eles esses três campos de atividades. Os internados são colocados em um único local, ganham em seu alcance heurístico e em seu potencial criador de novos problemas com os mesmos parceiros, e devem se submeter a uma única e mesma autoridade. de pesquisa. Eles são também menos perecíveis, resistindo melhor à prova do tem- Goffman busca, portanto, analisar o funcionamento, os mecanismos e os proces- po. As informações estritamente concernentes ao universo de análise tornam-se SOS próprios ao hospital e também alguns efeitos deste ambiente, sob mais rapidamente obsoletas e necessitam ser, mais atualizadas. ponto de vista dos doentes. Segundo a classificação aqui proposta, trata-se de uma amostra de meio social ou institucional por caso único. 170 171LEIDO DIREITO AUTORAL Os universos variáveis gerais são os asilos psiquiátricos, no Estado de Was- hington, nos Estados Unidos, ou mesmo alhures, e, em diferentes graus, os diver- SOS estabelecimentos especializados na vigilância dos seres humanos (prisões, Mas, o que acontece com as noções de amostra e de universo de análise? Ao escolher o hospital X, Goffman considerou uma amostra, ou pesquisou uma "po- pulação" (isto é, um universo de analise total)? tomou amostra, tra ta-se de uma amostra dos outros ou somente do hospital St. Elisãos beth? Conseqüentemente, várias opções conceituais tornam se possíveis no imagi nário do pesquisador. Examinarei, aqui, as três principais. ou outros. Em primeiro lugar, poder-se-ia dizer, simplesmente, que Goffman pesquisou o manicômio X integralmente, sob tal ângulo e no contexto de uma problemática teórica precisa. Seu corpus é, portanto, apresentado como tendo sido constituído a partir de um exame referente ao conjunto de sua população. Conseqüentemente, a noção de amostra operacional se esvai em benefício da de universo de análise, como numa pesquisa de estrutura aberta. que ele pesquisou todo o seu uni- verso de análise, sob o ponto de vista dos internados. É a idéia que nos vem à mente, quando falamos em um estudo de caso. Essa representação foi mais usual na tradição da Escola de Chicago. Efetiva- mente, muitos dos pesquisadores consideraram seu corpus empírico como sendo a análise de um todo completo, mesmo se eles aí permanecessem somente alguns meses. Cooley (1928: 128), por exemplo, recomenda que o pesquisador qualitati- VO pesquise principalmente as instituições e os grupos que não são demasiado grandes para prejudicar uma abordagem direta e total. Pode-se reformular livre- mente essa recomendação da seguinte forma: "De preferência, o pesquisador qua- litativo não deve retirar uma amostra, nem considerar uma fatia excessivamente extensa (como a cidade de Nova York); ele deve se contentar em considerar uma população de tamanho manipulável". Shaw (1930: 2), em seu estudo sobre a vida de um único jovem, entende que é preciso pesquisar a "história total do caso". O analista deve "se assegurar de obter o retrato o mais completo possível dos aconte- cimentos sucessivos ocorridos na vida dos jovens delinqüentes" (p. 14). Becker (1966: p. vi) considera também que o pesquisador "que colhe uma história de vida deve tomar as medidas para se certificar de que abrange tudo o que se quer sa- ber e que nenhum fato ou acontecimento importante seja negligenciado". Ora, es- sas noções de "história total", de "retrato completo", ou essa vontade de "tudo abranger", são incompatíveis com a noção de amostra operacional e correspondem de população. Rose (1982: 56) apresenta também a prisão onde Garabedian (1963) realizou sua pesquisa como seu universo de análise (sua população), e as prisões em geral como seu universo geral. Além disso, o fato de escolher tal ou qual aspecto da realidade, para observá-lo, não coloca dificuldade particular quanto à 10. Ver as observações de Robert Castel (p. 11), em sua apresentação da obra de Goffman (1961). 173LEI DO DIREITO AUTORAL representação da totalidade. Em realidade, isso não é muito diferente da escolha Pode-se também objetar a Huberman e Miles que seu objetivo se torna con- que faz um pesquisador que propõe esta ou aquela pergunta em um questionário. tra-intuitivo em pesquisas como a de Blau. Efetivamente, de quê nos adianta saber Do mesmo modo que as questões escolhidas não são uma amostra daquelas que se que Blau destinou tantos dias tantas horas observação em seu campo de pesqui- teria podido propor sobre outros temas, as observações que se faz não são conside- sa, se seus resultados não estão diretamente relacionados às características de seu radas aqui como uma amostra operacional das observações que se teria podido fa- campo? Mesmo no caso de Goffman, isso também não é útil, já que suas observa- zer sobre outros aspectos. ções não visam conhecer o que ele não viu em seu campo de pesquisa, mas sim em fa- Uma outra opção consiste em dizer que manicômio X (como um todo), nos lar sobre o que ele observou e que está virtualmente acontecendo em outros cam- pos (universos gerais). transmitido Estados Unidos, em uma época determinada, constitui a amostra de Goffman. Mas, sejam quais forem os meios Assim sendo, apenas as duas primeiras opções me parecem apropriadas (ver eletrônicos mecânicos então, trata-se, como no caso de Blau, de uma amostra dos universos gerais. A noção de amostra é empregada, assim, em sentido amplo, como sinônimo de universo de exemplo 2 da figura 5). Não é surpreendente que os estudos qualitativos análise (população). questão "amostra de quê?", deve-se responder: "dos único tenham privilegiado, sobretudo, a primeira opção. Como elas visam a um mios, em geral". Deslocamos, assim, o sentido da palavra população para popula- conhecimento completo do caso, não se utilizará a noção de amostra, e, se assim ções em geral. Esta modificação no sentido das palavras não muda as características for feito, não se lhe conferirá uma acepção ampla. metodológicas da pesquisa. A generalização que o pesquisador faz é principalmente teórica ou analítica, porque ele passa diretamente do nível empírico ao nível teórico Não posso explicar aqui, em detalhes, por que a pesquisa de Goffman permite (ver a figura 5). A opção passa ainda a imagem de uma estrutura aberta, já que não várias representações diferentes, enquanto a de Blau não levanta essa dificuldade. há separação nítida entre a noção de amostra e a de universo de análise. Digamos que Blau tem por seu universo de análise - a agência somente um inte- resse metodológico. Ela desempenha o papel de um mero laboratório de pesquisa. A terceira opção, por fim, consiste em considerar toda pesquisa como estrutu- ra fechada. Alguns metodologistas assim, todo corpus empírico como sendo Em contrapartida, Goffman tem um interesse sociológico, ou "substancial", por necessariamente uma amostra operacional constituída por um certo número de seu universo de análise: sua pesquisa refere-se a ele. Por outro lado, há diferenças em dias de observação, de sublocais visitados e de entrevistas realizadas no hospital X, termos das representações entre o qualitativo e o quantitativo. Em razão da natureza e isso mesmo que pesquisador não tenha retirado formalmente uma amostra. da observação quantitativa, que é mais centrada, ela divaga menos: ela é fixada pela Huberman e Miles (1991: 62) argumentam, por exemplo, que o simples fato de forma que adquire a coleta dos dados. O analista que estuda todos os casos de uma que pesquisador vá observar um único meio já significa que ele considerou uma população, sob o aspecto que lhe interessa (por exemplo, todos os casos de suicídio, amostra. Evidentemente, esta observação não é falsa, mas não é pertinente. Por durante um período), dá imediatamente a impressão de ter tudo visto sobre este as- quê? Porque o sentido da palavra amostra não é mais mesmo. Em uma pesquisa pecto. Em realidade, ele observou tudo o que reteve em sua tabela, e, se esta se refere com uma estrutura aberta pesquisador não se detém a apresentar seu corpus aos ela acrescenta uma segunda redução já realizada pelo Nas como uma amostra operacional de seu universo de análise. Basta-lhe mostrar pesquisas qualitativas por observação participante, o olhar do analista é menos fixa- como ele constituiu seu corpus e indicar qual é o seu universo de análise. É que seu do de antemão, e se desloca, incessantemente, de um ponto a outro. A imagem da objetivo final não leva aqui a fazer uma generalização empírica, a partir de seu população ou da amostra pode, assim, mais facilmente emergir. material, ao restante de seu universo de análise não-observado, antes de passar ao plano teórico. Goffman e Blau visam fundamentar empiricamente um conheci- mento que se dirige diretamente ao nível teórico. Isso é uma característica desse 2. A amostragem e alguns tipos de amostras na pesquisa qualitativa de pesquisa. Em contrapartida, nas pesquisas apresentando uma estrutura A figura 1 apresentou as amostras qualitativas, segundo uma divisão em dois fechada, pesquisador não tem escolha: ele deve proceder, anteriormente, a uma grandes grupos: a amostragem por caso único e por casos múltiplos. Essa classifi- generalização empírica mais formal de seu corpus ao seu universo de análise. Mar- cação não é nem absoluta, nem exaustiva, mas dá uma noção de diversas espécies tel (1994) deveria se certificar de poder estender, primeiramente, sua análise dos artigos do jornal ao próprio jornal, antes de generalizar deste jornal ao nível teóri- de amostras e permite esclarecer algumas questões metodológicas. Limito-me, CO. Se um outro pesquisador descobrisse que havia, em um outro diário, nesse aqui, à questão da amostragem de microunidades sociológicas, como as de atores mesmo período, uma outra representação das mulheres vítimas de violência, os re- sociais, de instituições, de documentos e de algumas unidades geográficas de sultados teóricos de Martel deveriam ser parcialmente corrigidos, para dar conta manho reduzido. Conseqüentemente, não tratarei, diretamente, por exemplo, de deste fato novo. um estudo de caso referente ao conjunto da cidade de Nova York, ou à crise dos 175 174LEI DO DIREITO AUTORAL mísseis cubanos. Deixo também de lado as pesquisas históricas, mais particular- sência ou na sub-representação de A segunda é a história de vida segmen- mente, aquelas que se estendem num longo período, ou que se referem a proble- tada ou porque ela se articula em torno de um tema central e máticas complexas. Ocorre que algumas reflexões possam, eventualmente, aju- abranger algumas dimensões ou problemáticas específicas da vida do ator (vida dar a pensar outras situações ou estratégias de amostragem. Por outro lado, todas profissional, experiência de divórcio, pela Lei as denominações apresentam algumas dificuldades, mas me contentarei em es- clarecer as noções de caso único e de casos múltiplos, assim como a de amostra A amostra de meio, geográfico pode ser reproduzido ou de quais forem os meios Especifiquemos, também, que trabalhos tomam uma forma híbrida, ou não se Escolhe-se um "meio" como universo de para a constituição do corpus empírico; por exemplo: uma área da cidade (WIRTH, 1928; deixam facilmente classificar como pesquisa por caso único ou por casos múlti- um hospital psiquiátrico periferia (BAUMGARTNER, plos, e isto por razões 1988), etc. O universo de análise se apresenta ao analista de forma não parcelada e como sendo passível de uma apreensão em sua totalidade. A amostra de meio não A amostragem por caso único das microunidades sociais exige, necessariamente, que todas as observações sejam feitas em um único local, O modo mais simples de elucidar o que é uma amostragem por caso único con- mas tão simplesmente que elas sejam tratadas como se referindo globalmente a um siste em começar simplesmente apresentando seus tipos, a partir de exemplos de mesmo meio. Goffman (1961), por exemplo, concentrou suas observações no hos- pesquisa, e em examinar, em seguida, sua caracterização conceitual. pital St. Elisabeth, em Washington, mas também fez observações em outros hospi- Retirei três tipos de amostras por caso único: a amostra de ator (que toma a for- tais. Entretanto, suas observações não tinham o objetivo de distinguir os hospitais ma de dois modelos), a amostra de meio, geográfico ou institucional, e a amostra entre si, mas sim fornecer um retrato global aprofundado de um mesmo tipo de instituição "total", bem como da carreira moral dos doentes mentais. de acontecimento (ou de enredo) A amostra de acontecimento ou de enredo A amostra de ator Muito prosaicamente se afirmará que a amostra de acontecimento ou de enre- Aqui, o corpus empírico se constitui essencialmente em torno de uma pessoa, do toma como ponto de fundamentação empírica um acontecimento que, por via ou de uma família. Geralmente, obtém-se um relato oral ou escrito da pessoa em de regra, é relativamente raro, do ponto de vista da um escândalo questão, ou dos membros de uma família. Três vias são freqüentemente adotadas tico, um rumor, uma crise, um motim, uma intervenção brutal das forças da or- para colher esse relato: a) documentos pessoais escritos espontaneamente pelo in- dem, um assunto judiciário extraordinário, etc. A pesquisa de Morin (1969) sobre formante e sem interferência do analista (autobiografias, cartas, diários íntimos, um rumor referente ao desaparecimento de moças nos provadores das lojas dos co- etc.); b) documentos escritos pelo informante, a pedido do analista (com ou sem merciantes judeus na cidade de Orléans, a pesquisa de d'Acosta (1987) sobre um orientação sistemática ou pedidos de revisão); c) uma ou mais entrevistas em pro- dossiê judiciário de corrupção política na cidade de Anjou, e ainda, a de Martel fundidade com a mesma pessoa. (1996) sobre um judiciário da Corte Suprema do Canadá relativamente ao Este tipo de amostra se inscreve geralmente no contexto das pesquisas deno- suicídio assistido ("o caso Sue Rodriguez"), são exemplos desse gênero de amos- minadas biográficas. Grosso modo, há dois tipos de histórias de vida. A história de tra. Certamente, nada impede que o analista escolha um acontecimento ordi- vida dita completa é aquela que se refere à vida de um indivíduo ou de uma família nário, como um caso usual dos tribunais. em seu conjunto, e que tende, em princípio, a abranger as suas principais dimen- Por certo, priorizam-se necessariamente alguns temas, o que implica na au- 12. As pesquisas de Shaw (1930). de Lewis (1961) e de Letellier (1971) seriam bons exemplos disso. 11. A obra sob a direção de Bourdieu (1993), La misère du monde (A miséria do mundo, Ed. Vozes), é 13. A pesquisa de Sutherland (1937) sobre o "ladrão profissional" ilustra esse tipo de pesquisa. Aqui, um exemplo. Ele apresenta vários estudos de caso realizados por pesquisadores diferentes em torno retomo grosso modo a distinção de Kluckhohn (1945: 157) e de Denzin (1970: 221-222). de uma problemática comum. Separadamente, cada pesquisa constitui um miniestudo de caso; dis- 14. No caso da pesquisa de Whyte não se deve confundir o objeto (sobretudo o grupo) com a amostra. postas conjuntamente, elas projetam uma imagem global que difere daquela que cada uma delas No início, ele pretendia estudar um bairro pobre (slum district) e foi isto que ele escolheu (WHYTE, apresenta individualmente. 1943: 283). 176 177LEI DO DIREITO AUTORAL Chamo de acontecimento menos um fato bruto do que um fato institucional (ou adquirir, sob um certo ângulo, contornos naturais, pois ela é, então, um fato insti- cultural) singular, e mesmo único, que se produz graças às instituições ou à cultura tucional (no sentido de Duas situações podem se apresendos e que, por esta razão, possibilita-nos apreender as mesmas em ação. O corpus empí- tar. Na primeira, exemplificada pela pesquisa de Morin orenredo não tem rico pode, às vezes, consistir em alguma coisa da qual não se pode retirar senão um contornos naturais e o analista é solicitado a recortá-lo diretamente, ao seu modo, único exemplo, mesmo uma atestação inédita. Essas pesquisas, para tomar uma para constituir seu corpus empírico e seu objeto. Na segunda, ilustrada pela pes- bela expressão de Morin (1969: 248), referem-se a "reveladores significantes", se- quisa de d'Acosta (1987), é administrativa que recorta, primeira- ou jam eles fortuitos, inopinados, contingentes, únicos, ou ainda, ao contrário, típi- mente, o enredo originário e sobre ele um Alguns cos ou reveladores de banalidades. Esse tipo de amostra enfatiza o acontecimento (institucional ou cultural) a partir do qual essas pesquisas se estruturam: um ru- mas (enredo primário) se assim, em um caso judiciário de (enredo secundário). mor, um escândalo político, um embate moral, um acidente, etc. Talvez se possa fotográficos ou quaisquer outros. Adaptando as observações de Veyne (1971: 23-24), podem-se distinguir, nos dizer que o interesse do pesquisador recai aqui mais sobre um acontecimento que dois casos, "campo dos acontecimentos", que constitui o domínio virtual do en- ele julga estratégico para o conhecimento do que sobre um meio social ou uma his- redo, e "universo de análise" de extensão variável, que analista recorta antes ou tória de vida. depois que outros cortes (institucionais) sejam produzidos e outros enredos sejam De um ponto de vista metodológico, essas pesquisas remetem, geralmente, a construídos. Se enredo não apresenta contornos institucionais claros, o corpus um universo de análise segmentado, multirramificado, e formado por diversas ca- empírico é uma ruptura que se opera diretamente, a partir das ligações objetivas do madas ou superfícies de cobertura, colocando frente a frente várias instituições, enredo primário. Se o enredo tem contornos institucionais, a situação é, ao mesmo atores sociais, etc. Em comparação com os dois outros tipos de amostras, o analista tempo, mais simples e mais complicada. Ela é mais simples, porque a instituição pode mais freqüentemente experimentar uma certa dificuldade para representar a torna visível ou acessível o enredo, fazendo uma primeira pré-construção dele. Ela sua própria pesquisa, sob ângulo de uma apreensão da "totalidade" do é mais complexa, porque a instituição não só recorta enredo primário (antes do ou para concebê-la como um sistema fechado. Em outras palavras, o pesquisador se analista), como o transforma, ao mesmo tempo, no sentido pleno do termo, em al- dá conta de que não examinou seu universo de análise (sua população) de modo guma outra coisa: ela participa do enredo. A amostra abrange, assim, dois campos total, e de que também não é possível extrair uma amostra operacional, no sentido de acontecimentos virtuais superpostos e eventualmente unificados e transforma- próprio do termo: ele deve escolher dentre os elementos visíveis ou acessíveis de seu dos: campo do enredo pré-institucional ou de fora da instituição, e campo ins- universo de análise segmentado. Nas pesquisas que recorrem a uma amostra de titucional do enredo (que é, geralmente, a criação de um novo enredo). O analista meio ou de pode-se falar (com algumas reservas) em uma observação "comple- deve, então, ter isso em conta. ta" (all-around study); naquelas que recorrem a uma amostra de acontecimento, ge- ralmente não se pode fazê-lo devido ao seu objeto, uma vez que se deve recortar teo- ricamente o objeto, à medida que se recorta e se apreende uma parte significativa e A caracterização da amostragem por caso único enigmática do acontecimento. Perpassa-se, por vezes, que Ginzburg (1980) linda- Que não nos equivoquemos: preocupo-me, aqui, com a distinção metodoló- mente denominou um "paradigma do indício", que lembra o modelo da semiótica gica entre amostragem por caso único e amostragem por casos múltiplos, tratan- médica: baseia-se nos vestígios, indícios, traços desprezados ou não-observados, do-se de pesquisas microssociais; e não com a caracterização das pesquisas cha- "nos resíduos, nos dados marginais considerados como reveladores" (p. 11), para madas de "estudos de caso", em seu A dificuldade é que não é retornar "a uma realidade complexa que não é diretamente experimental" (p. 14). vel, nem desejável, separar completamente a reflexão metodológica sobre as pes- Uma outra dificuldade consiste em que alguns aspectos do acontecimento podem quisas que recorrem a uma amostragem por caso único, da tradição do estudo de plantar suas raízes na zona dos "dados ocultos" (hidden data), particularmente di- Porém, este último adquiriu significações diversas na sociologia america- fíceis de evidenciar, ou cujos vestígios são difíceis de seguir. na e foi até mesmo empregado como sinônimo de pesquisa qualitativa (PIRES, Tomando a noção de Veyne (1971: 36), pode-se dizer que a amostra de aconte- 1982: 17; PLATT, 1983; 1992). Há vinte e cinco anos, tenta-se lhe atribuir um cimento é uma amostra de enredo. Ela tem ligações objetivas, mas não contornos significado mais técnico, mas ainda não há consenso muito claro sobre os limites naturais e predeterminados. Contudo, quando ela se apresenta ao analista sob uma forma pré-construída pela ação institucional, como num caso judiciário, ela pode 15. A este respeito, pode-se consultar Yin (1994) e Stake (1994). 178 179LEI DO DIREITO AUTORAL dessa noção. Seja como for, distinguirei, aqui, apenas duas variantes-tipo de pes- QUADRO 1 quisa por caso único (ver o quadro 1). Ambas variantes referem-se às unidades Critérios de caracterização de duas variantes de pesquisa qualitativa por caso de análise de tamanho reduzido e têm necessariamente em comum apenas um referentes às microunidades sociais ("estudos de pela único critério: o de poder representar suas amostras, singularmente. Os segundo e terceiro critérios permitem distinguir uma variante da outra. O quarto é mais Variante convencional Variante não-convencional um critério de oportunidade. Ele visa, principalmente, chamar atenção para o Este pode ser reproduzido ou 1. Corpus empírico representado sin- fato de que, contrariamente ao que se dá, às vezes, a entender, os estudos de caso 1. Corpus empírico sineilos podem adotar uma única técnica principal de coleta dos dados (documentos, por gularmente e descrição em profundi- gularmente e descrição em profundi- dade. empre dade. exemplo). Ele também ajuda a caracterizar a variante convencional segundo a gráficos ou quaisquer outros. tradição da Escola de Chicago, já que ela privilegiava técnicas múltiplas de coleta 2. Amostra de ator ou de meio. 2. Amostra de acontecimento (ou de en- dos dados. Enfim, como eu trato da amostra qualitativa em geral, também devo redo). distinguir entre o estudo de caso único e o que Stake (1994: 237) chamou de estudo coletivo de caso" (collective case study). Por razões pedagógicas, apresen- 3. Universo de análise fechado (com 3. Universo de análise potencialmente tarei essas pesquisas na seção destinada à amostragem por casos múltiplos, limi- contornos físicos "naturalmente de- multirramificado, segmentado, ou fazen- tando-me, aqui, a fazer alguns esclarecimentos sobre dois critérios dessas duas terminados"). Ele toma a forma de um do intervir diversas instituições de modo variantes do estudo de caso único. sistema integrado (bounded system). Fa- direto. Necessidade de recortar o enre- cilidade de falar de um olhar sobre o do para fins de descrição empírica. Di- conjunto. ficuldade, e mesmo impossibilidade, de corpus empírico no singular falar de uma observação completa. Pode-se dizer que a pesquisa por caso único se baseia num corpus empírico que é representado no singular e que implica a idéia de fazer um estudo em pro- 4. Adotam-se, usualmente, na mesma 4. Pode-se adotar uma única técnica fundidade desse único caso. Tem-se um caso único, quando à pergunta "qual é a pesquisa, várias técnicas principais de principal de coleta de dados (ex.: do- principal base empírica deste estudo?" responde-se: "É tal pessoa, tal família, tal coleta dos dados (observação in situ, en- cumentos), com ou sem outras "fatias trevistas, documentos, etc.). meio (ou tal instituição), tal acontecimento". Vê-se que a noção de "caso único" de dados" (slice of data). abrange uma grande variedade de situações (HUBERMAN & MILES, 1991: 47): as pesquisas baseadas em uma pessoa, um caso judiciário, uma escola, uma peri- universo de análise fechado feria, etc. O caso pode ser, portanto, simples ou complexo (STAKE, 1994: 236). A variante convencional se caracteriza também pelo fato de que o universo de Como o observa Stake (p. 47), nós fazemos um estudo de caso, porque acredita- análise é fechado; ou seja, tem contornos físicos "naturalmente determinados" mos poder aprender alguma coisa a partir de um único caso. Nosso caso - como (por exemplo, uma pessoa, uma escola, etc.), adquire a forma de um "sistema inte- ele o diz "é um dentre vários" (p. 47). Por outro lado, a escolha adquire uma grado" (SMITH, apud STAKE, 1994: 236) e permite uma observação "completa" importância particular, já que nós temos apenas um caso, e são as suas caracterís- (all-around study) e, "direta" (COOLEY, 1928: 128). A idéia cen- ticas que darão as condições de existência do objeto. Assim como há um grande tral é a de que o universo de análise ou as fronteiras do caso forma uma unidade número de estudos quantitativos insignificantes, os exemplos de estudos de ca- natural (mais do que conceitual), permitindo uma observação direta e completa SOS superficiais como o lembram Huberman e Miles (1991: 22) também não por parte do analista. Por exemplo, o estudo de uma pessoa, uma escola, ou uma são raros. Entretanto, quando o caso particular é bem escolhido e "bem construí- periferia, atende grosso modo a essas condições: são "conjuntos" possuindo con- do" (Bourdieu), ele deixa de ser particular e pode contribuir de forma significati- tornos naturalmente determinados e apreensíveis como um todo. va para o conhecimento. Em um estudo de caso, não nos interessamos unica- Esse critério coloca três dificuldades: a do tamanho, a da completude e a do mente pelas especificidades do caso em questão (ainda que elas possam ser valori- sentido da noção de "contorno natural". zadas e importantes), mas também por sua capacidade de servir de via de acesso a A primeira se formula assim: quão amplo um "sistema" (ou um universo de outros ou a outros aspectos da realidade. análise) pode ser para que ainda se possa vê-lo como um estudo de caso único, reti- rado de uma microunidade de análise? Uma pesquisa sobre uma cidade do porte 180 181LEI DO DIREITO AUTORAL de Nova York seria considerada como extraída de uma microunidade? Vê-se bem servir para o pesquisador reduzir a escala de seu universo de análise e apresentar que esta questão não pode receber uma resposta decisiva. No âmbito da variante seu estudo como tendo sido "completo" em um nível determinado. e protegidos convencional aqui considerada, o tamanho é um aspecto importante, em razão dos efeitos que produz sobre o tipo e a escala de observação do analista. De fato, quan- pela Lei 9.610/1998. A seleção do caso to maior a unidade, mais a observação é realizada à distância, abstrata e incomple- ta; inversamente, quanto mais a unidade é restrita, mais se pode afirmar ter feito Eis alguns critérios que influem na escolha ser reproduzido ou uma análise em profundidade, de perto e completa do ponto de vista privilegiado. a pertinência teórica (em aos objetivos iniciais meios Assim, Cooley (1928: 128) privilegia uma escala cartográfica reduzida e propõe as características e a qualidade do mecânicos, que estudo de caso (variante convencional) seja concebido como um estudo di- reto e completo, que se distingue dos estudos indiretos, parciais e mais abstratos. a tipicidade ou a exemplaridade; ou quaisquer outros. Nessa ótica, o estudo de uma cidade como Nova York não satisfaz a esse critério da a possibilidade de aprender com o caso variante convencional. Evidentemente, não se deve "privilegiar" essa escala redu- seu interesse social; zida de forma abstrata, pois tudo depende dos objetos que nós nos atribuímos, mas sua acessibilidade à investigação. convém ser advertido sobre as diferenças entre os diversos modelos. Em geral, há uma relação, ao mesmo tempo, de competição e de complementa- E que significa um estudo "completo"? Estamos todos conscientes do fato de ridade entre esses diferentes critérios. Por outro lado, é preciso, em qualquer cir- que a realidade é inesgotável. Znaniecki (1934: 256) já havia advertido o analista cunstância, ter em conta os dois primeiros. Um caso rico, mas mal adaptado ao de que "nenhuma esperança pode ser mantida de que uma análise possa ser sufici- problema, exige que se escolha um outro caso, ou que se modifique o problema; entemente desenvolvida para ser Além disso, como toda "escolha e trata- um caso pobre, mas bem adaptado ao problema, incita-nos a pesquisar um outro mento dos dados são operações 'cognitivas' sobre a 'realidade', que poderiam ser caso. Descartemos qualquer mal-entendido concernente à noção de exemplarida- definidas como a elaboração de um resumo" (Ramognino, 1992: 55), seria ilógico de. Geralmente, ela não se confunde com a idéia de "exemplo", pois o caso não é se esperar que um tal resumo pudesse ser "completo", no sentido de tudo ver, tudo usualmente escolhido para ilustrar uma tese que teria sido inteiramente construí- incluir, tudo dizer, etc. Um resumo completo é uma contradição e, além do mais, da antes, sem este caso; a tese que emerge do estudo de caso é um resultado de pes- ele seria inútil. O objeto é necessariamente construído. É preciso, assim, conside- quisa, no sentido de que ela se baseia nele, ou decorre em parte desse caso. Em re- rar a noção de "completude" por oposição à noção de amostra operacional, e não sumo, "exemplaridade" significa tanto tipicidade ("caso típico"), quanto possibili- como sinônimo de correspondência ponto por ponto com a realidade. Ela quer dade empírica de apreender, descobrir ou Nesta última acepção, seu sen- simplesmente dizer que pesquisador está numa situação na qual ele pode afirmar tido se torna vizinho ao de possibilidade de aprender (quarto critério). ter observado de perto conjunto de seu universo de análise, de sua "população", em relação ao problema de pesquisa. Três eixos teórico-metodológicos principais Enfim, a idéia de um contorno natural é reforçada, aqui, pelo tipo de amostra privilegiada: uma pessoa, um meio, etc. A "materialidade" do objeto facilita a tare- Os estudos qualitativos (de caso único) de microunidades se caracterizam, fa do analista e justifica satisfatoriamente a sua percepção de ter tido acesso ao con- usualmente, por três eixos de finalidades teórico-metodológicas principais (ver a junto de sua população (universo de análise). Porém, nós havíamos visto que exis- figura Em cada eixo, encontra-se uma espécie de tensão ou de competição te um tipo de pesquisa na variante não-convencional (concernente aos aconteci- entre dois pólos, dos quais um detém papel dominante e outro um secundário mentos), que se situa a meio caminho entre um "contorno natural" definido e um em relação a tal ou qual aspecto da pesquisa, por se tratar de diferentes finalidades "contorno segmentado". É caso de uma pesquisa baseada em um dossiê teóricas que nos Exatamente por essa razão, algumas pesquisas se arti- rio. Se aplicarmos, então, essa idéia de modo flexível, essa "materialidade" poderá 17. Stake (1994: 243) ressalta particularmente a importância desse critério. "Aprender com caso" indica um certo interesse por um procedimento indutivo. Se o objetivo principal da pesquisa é testar 16. Bourdieu, Chamboredon e Passeron escrevem nesse mesmo sentido: "[...] nas situações reais da modelos teóricos, esse critério se torna, pela força das coisas, menos importante ou adquire um outro significado. prática não se pode esperar construir problemáticas ou teorias novas senão sob condição de renunciar à ambição impossível, [...], de tudo dizer sobre tudo e na boa ordem" (BOURDIEU; 18. Abordo esses eixos no contexto dos estudos de caso único, mas eles podem também auxiliar a ca- CHAMBOREDON; 1973: 23). racterizar as pesquisas qualitativas por casos múltiplos. 182 183LEI DO DIREITO AUTORAL culam aos dois pólos de um mesmo Além disso, uma mesma pesquisa pode se questão qualquer. Algumas investigações, qualitativas ou quantitativas, visam, caracterizar em função de mais de um eixo. Por exemplo, no estudo de Morin bretudo, informar, reavaliar uma situação de interesse prático (por exemplo, (1969), retira-se uma dominância dos pólos B, D e E; no de Shaw (1930), os pólos construir as etapas de um julgamento in- dominantes são A, e E. tervenção política, ou clínica. Ao em direção ao pólo B, o pesquisador demonstra um interesse pelo objeti- FIGURA 6 VO explícito de ter acesso a um geral sobre alguns aspectos da vida Três eixos de finalidades teórico-metodológicas principais institucional, cultural ou Pode-se também objetivo de à prova uma ou várias teorias científicas atuais ou póteses de pesquisa. Eixo 1: o específico e o geral fotográficos ou quaisquer Interesse pelo A B Interesse pelo eixo dos comportamentos e da sociedade específico geral O segundo eixo ilustra o fato de que uma pesquisa pode principalmente ter por objetivo a compreensão de certos comportamentos (problemáticos), enquanto o objetivo de uma outra é a compreensão de certos aspectos da cultura ou da socie- Eixo 2: os comportamentos e a sociedade dade. Em número de pesquisas, primado de um ou de outro desses objetivos é bastante claro. Pode-se encontrar essa polarização mesmo nos estudos de caso Interesse pelos Interesse pela C D comportamentos sociedade CO com uma amostra de ator. Por exemplo, Shaw (1928) privilegia a compreensão do desvio, enquanto Lewis (1961) se atém a aspectos da vida social. Evidentemen- te, há também pesquisas que atuam nos dois quadros, como a obra clássica de Su- therland (1937), que, ao fazer a genealogia de um comportamento mos- Eixo 3: a descrição em profundidade e a comparação ou acumulação tra, ao mesmo tempo, como este "ofício" o do "ladrão profissional" é social- mente construído. A atividade do ladrão profissional aparece, então, como uma Interesse pela Interesse pela inscrição individual no contexto de um estilo de vida social (way of life). Torna-se descrição em E F comparação ou ladrão profissional, assim como se torna policial ou advogado. De um lado, a pes- profundidade acumulação quisa desconstrói as explicações teóricas orientadas sobre a hipótese da patologia (ao sugerir uma explicação voltada para uma psicossociologia da normalidade), e, de outro ela nos ensina muito sobre o funcionamento das instituições sociais. eixo do específico e do geral A figura do ladrão profissional é, portanto, aquela pela qual se pode compreender a O primeiro eixo indica a opção no que se refere ao interesse pelo fenômeno em estrutura e o funcionamento do sistema, para parafrasear Morin (1969: 247). As si, ou enquanto possibilidade de abordar algumas questões teóricas. Certamente, o noções-chave de estilo de vida e de ofício possibilitam ler essa pesquisa em duas di- interesse pelo acesso a um geral empiricamente fundamentado exige constantemen- reções. Chamarei primeiro tipo de pesquisa de "modelo comportamental", e o te uma boa construção do específico, para se proteger dos desvios de sentido; po- segundo, de "modelo (ver a figura 7). rém, nota-se, na maioria dos estudos, uma propensão a se vincular a um ou a ou- tro. Evidentemente, pode-se lamentar, por vezes, uma enorme falta de equilíbrio O modelo comportamental e a amostra de ator único entre esses pólos. Algumas pesquisas se tornarão, então, ou demasiado abstratas, ou demasiado empíricas. No primeiro caso não se mais as ligações entre os Por razões variadas e complexas, que vão da ambiguidade de certas formula- ções aos vieses positivistas, passando por problemas teóricos de difícil resolução, enunciados teóricos e corpus empírico. Tudo se passa como se o analista não ne- este modelo aplicado a um único ator foi o mais controvertido das pesquisas cessitasse da pesquisa para manter esses objetivos. No segundo, a pesquisa não de- qualitativas. Contentar-me-ei, aqui, em ilustrar a discussão, por meio de alguns as- monstra seu valor teórico. Se a descrição empírica for, por outro lado, muito bem pectos de uma pesquisa clássica da Escola de Chicago (SHAW, 1930). feita, esse corpus empírico possibilitará uma reflexão teórica a posteriori por um outro pesquisador. Efetivamente, há pesquisas cujo principal objetivo é simples- mente construir um corpus empírico, ou ainda, "restabelecer os fatos" sobre uma 19. Shaw (1930: 7) faz, de um certo modo, alusão a esses dois modelos. 184 185LEI DO DIREITO AUTORAL No todo, as pesquisas que adotam este modelo tinham ao menos três objetivos conjugados: a) um interesse metodológico b) um interesse teorico; resse pragmático ou clínico. O primeiro buscava valor ca (sympathetic appreciation), e do ponto de vista do interior e de baixo (da mensa- gem from "down there"), para uma compreensão do caso. O segundo visava enun- ciar hipóteses (e não uma teoria) sobre comportamentos problematicos e ressaltar ou a importância dos conceitos chaverde da situação", etc. Por fim, o último procurava reorientar a relação de ajuda, fornes cendo novas pistas para o tratamento do sujeito de outros indivíduos em si- tuação social e pessoal semelhante. Ninguém duvidava do fato de que essas pesquisas pudessem inspirar hipóteses teóricas interessantes, com uma certa base empírica, e tampouco de sua capacidade de atender convenientemente aos objetivos metodológico e pragmático. É mais a questão da generalização teórica a todos os comportamentos e também a da construção de teorias com base numa única pessoa, que fazem correr muita tinta. A pesquisa de Gratton (1996), por exemplo, explicita claramente que não se podem compreender todos os casos possíveis de suicídios de jovens, a partir de um único caso, ainda que, eventualmente, este possa ser suficiente para ilustrar uma modalidade deste comportamento. Ora, se isso é verdade para o suicídio, a si- tuação é ainda mais delicada em relação à e isto por ao menos duas razões. Primeiramente, o número de comportamentos passíveis de serem rotula- dos como é muito maior (exemplo: trapacear, destruir, bater, difa- mar, matar, agredir sexualmente, apropriar-se do que pertence ao outro, etc.) do que o número de comportamentos chamados de "suicidas". Depois, o rótulo de depende de uma lei e da reação social das pessoas, o que não é o caso do Este último problema é de ordem epistemológica e só se tornou evidente muito mais tarde (PIRES, 1993a). Uma só pessoa não pode, portanto, dar acesso à compreensão de todos esses comportamentos problemáticos considera- dos de maneira abstrata. Porém, essas pesquisas podem ser utilizadas para esclarecer os comportamen- tos do informante que estão no centro da investigação, e também possibilitam apreender certos mecanismos e situações capazes de provocar a emergência de comportamentos problemáticos. Elas podem também ajudar a construir, por meio de outros casos, casos-tipo empíricos, à luz dos quais se torna possível explicar melhor algumas formas contextuais de comportamentos problemáticos. Esse tipo de pesquisa, como vimos, tenta obter uma série de fontes de dados referente à his- tória de vida do indivíduo, incluindo seu relato pessoal (own story, own account, personal document) o mais completo possível. Essas fontes de dados podem com- preender informações médicas, jurídicas, depoimentos de outros informantes, etc. O objetivo é construir uma história completa (total case history), daí a idéia de ter 187LEIDO DIREITO AUTORAL tudo observado em seu universo de O movimento do pensamento é, aqui, relevante: não é a do flash de luz que importa, mas sim o que ele permi- indivíduo e seus comportamentos estão no centro das preocupações, te ver. Além disso, a ser integrada como e faz-se convergir para ele essa variedade de fontes de A direção teó- Na amostra de ator, o vivido, a perspicácia a boa capacidade de expressão do rica principal do olhar é clara: deseja-se compreender determinadas condutas. informante, e seu papel objetivo nos acontecimentos, ou na estrutura social, são Indiretamente, e de maneira um pouco inesperada, descobriu-se uma outra Além disso, como Letellier (1971: 18-19) bem o observa a respeito utilidade para essas pesquisas: elas servem como uma forma de "avaliação" crítica é preciso se desvencilhar da que bom informante é aquele que não possui das teorias (BECKER, 1966: x-xii). Efetivamente, trata-se de uma forma aberta de nenhuma originalidade. Ao contrário relativa del um crítica, porque, em lugar de expor primeiramente a teoria que ela deve testar, a te-chave apresenta até algumas vantagens" na medida que nos pesquisa leva muito simplesmente a uma descrição em profundidade específica e melhor que nos fotográficos ou quaisquer outros. individualizada de um caso. Esta descrição aparece, assim, por força das circuns- A coleta dos dados se faz em função das necessidades da análise e da constru- tâncias, como um desafio aberto - ou como um "caso negativo" (p. xi) -, lançado ção teórica: à medida que se colocam questões, ou que se formulam hipóteses, bus- às teorias que se aplicam a esse caso. cam-se os elementos empíricos para prosseguir ou encerrar a análise. Em qual mo- mento deve-se um fim a esta tarefa sem fim? Quando se tem material suficiente modelo societário já investido pela reflexão teórica para sustentar as análises, verdadeiros resultados de pesquisa. Neste modelo, pesquisador orienta seu olhar no sentido inverso do prece- dente: em lugar de ter em mente certos comportamentos que ele quer compreen- Na amostra de ator ou de meio, e em alguns casos de amostra de acontecimento, der ou explicar, ele parte da história pessoal de um ator social, do estudo de um também se cessa a tarefa, quando se acredita ser possível dizer que se "fez o giro" do meio, ou de um acontecimento, para apreender determinados aspectos da organi- universo de análise, ou de um subconjunto dele; isto é, quando se coletaram todos zação social, das instituições, ou da cultura. O pensamento adota, aqui, um movi- os dados disponíveis ou suficientes, tendo em vista as finalidades da pesquisa. Pes- mento a compreensão do caso, enquanto tal, cede lugar a um conheci- quisadores empregam, aqui, a noção de saturação (empírica), para designar o fato de mento mais geral que o próprio caso. que a coleta dos dados (sobre um único caso) não mais traz informações suficiente- Nas pesquisas com ator único, quando o analista bebe em outras fontes de da- mente novas, para justificar aumento do corpus Porém, outros não o fa- zem, como Baumgartner (1988), uma vez que a aplicação desse princípio em um es- dos que relato de vida, estas visam menos explicar os comportamentos do sujei- tudo de caso único (sistema fechado) é menos importante. to do que determinados aspectos ou mecanismos da vida social e cultural de seu grupo ou da sociedade. Tudo se passa como se o ator não tivesse, aqui, senão um As pesquisas que recorreram a uma amostra de acontecimento e a um universo interesse metodológico, na medida que é por sua mediação que se apreendem os de análise aberto enfrentam uma situação mais difícil. Os dados potencialmente modos de vida, que se detecta o funcionamento das instituições, etc., verdadei- pertinentes são múltiplos e estão dispersos em diferentes locais. O princípio de sa- ros alvos do conhecimento. turação é, aqui, em geral, completamente inadequado e ilusório: mais mente, pesquisador recorta e constrói, mas não satura nada do ponto de vista em- Geralmente, a tipicidade do caso é, aqui, menos importante do que suas quali- pírico, pois ele junta pedaços de um subsistema ao outro, sem jamais "fazer o dades intrínsecas (sua "riqueza"), ou do que as oportunidades que ele oferece para esclarecer certos aspectos da vida social. As circunstâncias, a sensibilidade ou a ha- bilidade do pesquisador para descobrir caso desempenham um papel indiscuti- 22. Além do mais, "um indivíduo não é necessariamente representativo quando ele representa uma vel. E também, quanto mais o caso abre novos caminhos para a reflexão ou para média de características atribuídas a uma população habitando um bairro. Seus traços particulares fa- outros materiais empíricos, mais há possibilidades de ser um "bom caso". Eu insis- zem igualmente bem sobressair os traços gerais" (LETELLIER, 1971: 18). Um informante que se ex- to no fato de que, aqui, a raridade do acontecimento, enquanto tal, é muito pouco presse melhor, ou que, em certos níveis, seja mais hábil do que outros, continua sendo "representati- vo", de um ponto de vista qualitativo, do meio em que vive (p. 18). Meu colega Guy Houchon, da Escola de Criminologia da Universidade Católica de Louvain, chamou minha atenção para o fato de que Whyte (1943) escolheu Doc como informante, em parte por sua grande capacidade de tomar dis- 20. A história pessoal é a parte mais importante de uma história integral (SHAW, 1930: 2). tância em relação ao seu próprio papel. Encontra-se uma originalidade semelhante em Chic Conwell, 21. A pergunta: "O que nos revela a história de vida pessoal?", Shaw (1930: 3) responde: ela revela informante-chave de Sutherland (1937). informações úteis sobre pelo menos três aspectos da conduta do informante: 1) seu ponto de vista; 2) 23. Em se tratando de um estudo documental e que vocês tivessem reunido todos os documentos dis- a situação social e cultural à qual ele corresponde; e 3) a de experiências e de situações em poníveis, o princípio de saturação não se aplicaria, porque vocês teriam concluído sua coleta de da- sua vida. dos. Voltarei a esta questão. 188 189LEI DO DIREITO AUTORAL rência estatística? Essa inferência empírica qualitativa tem uma denominação con- permite também compreender algumas questões relativas às transformações so- sagrada: "indução analítica". No qualitativo, como eu o mencionei anteriormente, ciais e culturais, pois se pode apreender a cultura mecanismos sociais em utiliza-se o mesmo termo para os dois níveis de generalização. Isto se justifica por- ação, a partir dos "normais", rotineiros que, extremos ou que é muito raro, no qualitativo, que se possam separar nitidamente os dois níveis, excepcionais, revelam-se como excelentes fios condutores para a análise de dife- mais particularmente nas pesquisas com uma estrutura aberta. Entretanto, para rentes aspectos da sociedade. Pode-se também como o observa Mo- chamar atenção para a diferença entre esses dois níveis, eu a denomino aqui "gene- rin (1969: 249-251), a partir fenomenos e situações extremas, ou ralização ou tão simplesmente "empírica". "patológicas" (para o sistema) que desempenham um papeli meios Znaniecki propôs uma distinção entre a "indução estatística" Enfim, as pesquisas desse às (ou "enumerativa") e a "indução Esta distinção é importante, para que frente à idéia de generalização, tal como se compreende que, se possam compreender as diferentes modalidades de generalização. A primeira, quando elas são bem realizadas, elas possibilitam uma descrição em profundidade, diz ele, procura na realidade as características que são comuns a um grande núme- dando lugar a uma riqueza de detalhes e a uma valorização de alguns traços distin- ro de casos e, em razão de sua generalidade (ou de sua extensão), presume que elas tivos. Esse aprofundamento produz um efeito de individualização do caso, que, sejam essenciais para cada caso. A indução analítica, ao contrário, procura em um considerado em sua totalidade, aparece, desde então, como impossível de "genera- caso concreto (ou em um pequeno número de casos) as características que lhe (ou lizar". Do mesmo modo que se diz que cada pessoa é quando se a aprecia lhes) são essenciais (ou as propriedades constitutivas) e as generaliza, presumindo nos detalhes, pesquisador pode descobrir, após uma descrição em profundidade, que, por serem essenciais, elas devam se aplicar a outros casos similares. que seu caso é É problema de escala e de projeção: os processos de apro- A inferência analítica ou teórica permite também apreender na vida social aspec- fundamento e de generalização são orientados em direções opostas. Em um estudo tos dessa realidade, que são "vagos por essência" (MOLES, 1990: 12); isto é, que é de caso concernente à ordem moral em um subúrbio (suburb), Baumgartner expri- absolutamente impossível determinar de outra maneira do que qualitativamente. Por me bem esse inconveniente: exemplo, dizer que se mede quantitativamente o "poder" de um grupo em relação a Nenhum vilarejo (town) pode, provavelmente, representar todos os outros (all um outro significa, em geral, muito simplesmente, que se propõe uma precisão, que, of suburbia), e tampouco a falta de traços particulares passíveis de distingui-la dos paradoxalmente, não é rigorosa; isto é, uma precisão que "não é conforme com as outros lugares. No entanto, estudo de um único vilarejo nos dá um meio acessí- leis da razão" (p. 12), porque não é conforme com a natureza do objeto. vel de reunir uma informação detalhada que pode lançar uma luz (offer insights) Viu-se, por outro lado, que as pesquisas qualitativas por caso único com uma sobre uma grande variedade de conjuntos análogos (BAUMGARTNER, 1988: 14). estrutura aberta não seguem um procedimento metodológico nítido de generaliza- Na realidade, o estudo de caso representa em diversos níveis outros casos, e o pes- ção em duas elas passam diretamente de seu universo de análise aos uni- quisador ou o leitor podem generalizar no sentido de que eles podem reter em versos gerais (nível teórico). Esta generalização como toda generalização teórica to crítico uma série de explicações capazes de ajudá-los a compreender o que se pas- proveniente de uma pesquisa quantitativa é, então, ao mesmo tempo, fundamental sa alhures (generalização analítica, plástica). Mas, este não é o caso no todo, e, em e fluida; isto é, ela poderá sofrer adaptações parciais, quando for aplicada a outros seus menores detalhes, que são generalizados. E não convém especificar abusiva- contextos de pesquisa (outros universos de análise). Os resultados analíticos são mente conteúdo da generalização analítica, pois ela é perfeitamente operacional essencialmente plásticos ou maleáveis; ou seja, uma vez produzidos, eles têm a ca- no plano do pensamento e da criação. Toda tentativa nessa direção seria vã e reduzi- pacidade de serem moldados por futuros usuários. ria exatamente o que a generalização apresenta como vantagem: seu alcance heurís- Esses estudos de caso único do modelo societário visam ao conhecimento dos tico e seu conteúdo Busca-se, ao longo da análise, um equilíbrio entre mecanismos sociais, das instituições sociais, da cultura, etc. A generalização desig- algumas precisões e algumas distensões, em vista de atingir um alcance mais heu- na, então, as inferências analíticas feitas a partir das observações sobre a estrutura, rístico. A questão-chave para essas amostras não é, portanto, por exemplo: Quantos os processos e o funcionamento de um sistema ou da vida social. O estudo de caso hospitais é preciso considerar para se falar no conjunto dos hospitais?; mas, sim: Quais são as propriedades e quais são os processos característicos desse 26. Os termos empregados são "enumerative induction" e "analytic induction". Ver também Lindes- mith (1947: 21). 28. Há, neste sentido, um paralelo entre esse tipo de generalização e o que O. Zadeh, pesquisador em 27. Evidentemente, isso seria também um inconveniente para as pesquisas quantitativas, como a de física matemática na Universidade de Columbia, chamou de "conceitos fluidos" (fuzzi concepts). Ver Blau (1960); porém, com os números, este tipo de dificuldade passa desapercebido. Moles (1990:39) 192 193LEI DO DIREITO AUTORAL Como ele funciona e quais efeitos ou funções pode-se extrair etc. É certo que ou de apreendê-lo através de sua própria experiência; de dar conta de seus senti- se a pesquisa for malfeita, qualquer generalização se tornará inaceitável. mentos e percepções sobre uma experiência de ter acesso aos valores de grupo ou de uma época que ele conhece a título de etc. Eviden- temente, pesquisador se reserva sempre o direito de ir além da informação dada A amostragem por casos múltiplos das microunidades sociais por cada informante, e de contextualizá-la convenientemente, confrontá-la com As pesquisas qualitativas que recorrem à amostragem por casos múltiplos (ou outros fatos e abordá-la de maneira uma-tal escolha metódica ou multicasos) adquirem duas formas-tipo: a das entrevistas com vários indivíduos e plica, ainda assim, que haja menor interesse que o interlocutor acredita. do a dos "estudos coletivos de casos" (STAKE, 1994: 237). Para facilitar a exposição, que pelo que ele sabe, ou acredita por diretamente vivido ou apresentarei as pesquisas por casos múltiplos referindo-me, principalmente, às pes- Notem que o acesso à dimensão factual passa pela quisas que fazem uso das entrevistas. Os estudos coletivos de casos recorrem, sobre- subjetividade dos entrevistados. fotográficos ou quaisquer outros. tudo, a amostras por contraste-aprofundamento. Eu tratarei delas, então, neste mo- Convém distinguir, portanto, a partir de um ponto de vista metodológico, a mento. No que concerne à amostragem por casos múltiplos, as pesquisas baseadas certeza expressada pelo entrevistado da certeza que o analista tenta em documentos são similares, em diversos níveis, às pesquisas por entrevistas. Como há risco de erro nos dois casos, devem-se colocar duas dúvidas metódicas, que não se situam no mesmo momento da pesquisa, e que são relativamente dife- O eixo das representações sociais e das experiências de vida rentes. Primeiramente, a certeza do informante sobre um fato deve sempre ser vista como uma forma de crença: não é porque ele está convencido de que as coisas se Um quarto eixo de finalidades teórico-metodológicas caracteriza mais particu- passam de uma certa maneira que elas efetivamente são assim. Quando um dos en- larmente as pesquisas por entrevistas (ver a figura 8). trevistados diz que "sabe" que as coisas aconteceram assim, isto significa, simples- Um primeiro grupo de pesquisas visa, sobretudo, "apreender e dar conta dos mente, que ele está certo disso. Neste sentido, "saber" não significa que é verdade, sistemas de valores, normas, representações, símbolos próprios a uma cultura, ou mas apenas que se está convencido disto (WITTGENSTEIN, 1958: 31-32). Mas a uma subcultura" (MICHELAT, 1975: Pretende-se conhecer as ideologias depois é preciso também dosar essa dúvida, porque não se pode fazer pesquisa ou atitudes dos indivíduos pertencentes a diferentes classes sociais, diversos mei- com base nos fatos, apenas duvidando. Efetivamente, deve-se, de um lado, estar os, partidos políticos, etc. O estatuto conferido ao entrevistado é o de um indiví- atento, e mesmo desconfiado, em relação às representações, e, de outro lado, ga- duo que é o "portador da cultura e das subculturas às quais ele pertence e das quais rantir certos conhecimentos, sob pena de renunciar à pesquisa de um "conheci- ele é representativo" (ibid.: 232; grifo meu). Ele é uma espécie de base de uma das mento aproximado", segundo a fórmula de A pesquisa aparece, assim, constelações do sistema de valores societário. Neste sentido, não é necessário que como um modo particular de construir nossa própria convicção e de apresentá-la indivíduo tenha vivido uma experiência particular ou seja detentor de um co- em circunstâncias definidas. E tenhamos em mente a experiência: "eu acreditava nhecimento específico. Assim, se nós quisermos conhecer a imagem que catego- que eu sabia" (p. 33). rias diferentes de pessoas têm da justiça, nossa escolha não será limitada aos indi- víduos que tiveram uma experiência de vida com a justiça (os detentos, por exem- FIGURA 8 plo), ou que são peritos neste campo; bastará pertencer a uma sociedade possuin- Um quarto eixo de finalidades do esse tipo de instituição. As pesquisas do segundo grupo se interessam, sobretudo, pelas experiências Eixo 4: as representações sociais e as experiências de vida ou os depoimentos de vida, pelas instituições e pelas práticas sociais em geral. O estatuto do entrevis- tado é, portanto, outro. Cada indivíduo é menos o portador de um subsistema de Interesse pelos sistemas Interesse pelas valores, do que um informante, no sentido estrito do termo: necessita-se dele para de valores, as experiências de vida, as obter algumas informações sobre o objeto. Trata-se, assim, de conhecer seu ponto representações G H práticas sociais ou os de vista sobre o desenvolvimento dos fatos ou o funcionamento de uma instituição profissionais sociais, as depoimentos atitudes, as ideologias, etc. 29. Sobre a utilização da entrevista e sobre a amostra nesse tipo de pesquisa, ver o excelente artigo de Michelat (1975), que, em minha continua insubstituível. 195 194LEI DO DIREITO AUTORAL Os princípios de diversificação e de saturação analista não busca saber o que todos os quebequenses pensam da justiça penal, mas somente uma determinada categoria social de Abordarei, agora, dois critérios-chave, que foram indicados para orientar o pes- to, constituir sua amostra pela diversificação (externa) entre os quebequenses, es- quisador nas pesquisas qualitativas por casos múltiplos: o critério de diversificação colhendo, por exemplo, uma operária, um pequeno comerciante, etc. Ao contrá- e de saturação. Até um certo ponto, estes dois critérios estão ligados, uma vez que rio, o primeiro critério é a homogeneidade de sua amostra: somente os membros há duas formas de diversificação: externa e interna. A diversificação interna resulta da classe operária são em seguida pesquisador deve selater ou do processo de saturação. diversificação interna de seu grupo (homogeneizado): escolher operários e rias urbanos e rurais, de diferentes setores, sindicalizados não, jovens e idosos, princípio de diversificação etc. Trata-se mais de um estudo exaustivo ou em profundidade de um Apresenta-se a diversificação mais do que a representatividade estatística do que de uma visão global de quaisquer como o critério principal de seleção, no que se refere às amostras qualitativas por Esse procedimento de diversificação interna de um grupo que é, guardadas as casos múltiplos (GLASER & STRAUSS, 1967: 50-63; MICHELAT, 1975: 236). devidas proporções, mais restrito, faz parte integrante do processo de saturação Efetivamente, essas pesquisas são, em geral, solicitadas a dar panorama mais com- empírica. O pesquisador deve optar, aqui, entre o interesse pela comparação e o in- pleto possível dos problemas ou situações, uma visão de conjunto, ou ainda, um re- teresse pela descrição em profundidade, pois se ele privilegiar o contraste intergru- trato global de um problema de pesquisa. Daí, portanto, a idéia de diversificar os po, ele não poderá diversificar demais no interior de cada grupo. Sua amostra seria casos, de modo a incluir a maior variedade possível, independentemente de sua impossível de tratar qualitativamente. A diversificação externa é, por assim dizer, vertical, e não permite esgotar a diversificação interna (dita horizontal). A primeira Este princípio pode adquirir duas formas: 1) a diversificação externa (inter- tem por efeito reduzir as possibilidades de saturação no interior de um grupo, para grupo) ou contraste; 2) a diversificação interna (intragrupo). ganhar em termos da dispersão e da comparação O princípio de satu- A primeira se aplica quando a finalidade teórica consiste em apresentar um ração é, então, oposto ao de contraste, ou de diversificação externa: quanto mais se retrato global de uma questão, ou contrastar um amplo leque de casos variados. tende ao contraste (eixo vertical), mais é difícil atingir a saturação, no interior de cada novo grupo considerado. As pesquisas sobre as atitudes e as representações sociais, que recorrem às entre- vistas, interessam-se, geralmente, pela comparação entre ponto de vista dos indivíduos em diferentes subculturas, posições de classe, categorias sociais, etc. princípio de saturação Elas adotam, portanto, o princípio de diversificação externa ou de contraste. Ao que eu saiba, deve-se o conceito de saturação a Glaser e Strauss (1967: Como observa Michelat: 61-71). Ele será retomado e modificado, Hoje, o uso nos permite É, sobretudo, importante escolher indivíduos os mais diversos falar em dois tipos de saturação: a "saturação teórica" (theoretical saturation) e o [...] A amostra é, portanto, constituída a partir dos critérios de que eu denominei a "saturação empírica". Na realidade, encontra-se em Glaser e diversificação, em função de variáveis que, hipoteticamente, são es- Strauss (p. 62) referências aos dois aspectos (empírico e teórico) do conceito, em- tratégicas para obter exemplos da maior diversidade possível das bora eles não distingam um do outro e privilegiem a idéia de saturação teórica. Por atitudes pressupostas em relação ao tema pesquisado (MICHELAT, outro lado, eles apontaram satisfatoriamente as funções metodológica e operacio- 1975: 236). nal do conceito de saturação, que são semelhantes nos dois tipos. A segunda forma, ou seja, a diversificação interna ou intragrupo, remete a Para Glaser e Strauss (1967), a saturação teórica se aplica a um conceito (cate- uma finalidade teórica diferente. Digamos, de uma maneira imprópria, que, neste gory) e significa que ele emerge dos dados e é depois confrontado com diferentes caso, pretende-se apresentar um "retrato global", mas somente no interior de um contextos empíricos, sendo objetivo do pesquisador desenvolver as propriedades grupo restrito e homogêneo de indivíduos. Imaginemos o seguinte tema de pesquisa: a imagem da justiça penal entre as operárias e os operários quebequenses. Aqui, o 31. Para evitar uma confusão é melhor não falar em saturação, para designar o fato de co- brir todos os contrastes intergrupos possíveis; isto é, toda a diversidade externa. preferível, então, 30. O critério de diversificação pode ser invocado em outras circunstâncias, como nos estudos de falar em exaustividade, e não em saturação. caso único com uma amostra de meio, para ressaltar a necessidade de "fazer giro" desse universo 32. Ver Denzin (1970: 82-96), Blankevoort, Landreville e Pires (1979: 184) e Bertaux (1980: 205, de análise. 207-208; 1981: 37). 196 197LEI DO DIREITO AUTORAL do conceito e assegurar-se de sua pertinência teórica e de seu caráter heurístico. A amostra por contraste Quando, após aplicações sucessivas, os dados não acrescentam nenhuma proprie- O objetivo da amostra contraste com entrevistas abrir dade nova ao conceito, pode-se dizer que o conceito criado está saturado (cate- comparação (externa), ou para uma espécie de "totalidade Empre- gory's theoretical O conceito de saturação teórica se relaciona à sua ende-se, aqui, a construção de um mosaico, ou de uma maquete pela mediação de abordagem e é menos importante para meus objetivos, salvo como segundo plano um número diversificado de casos. Trata-se, assim, idealmente falando, de garantir para compreender a saturação empírica. a presença, na amostra, de ao menos um (de dois) de A saturação empírica, ou "de conhecimento", para empregar termo de Bertaux cada grupo pertinente em relação ao objeto da investigação Michelat (1975: por oposição à saturação teórica, aplica-se mais aos próprios dados, ou aponta que o contraste pode ser pesquisado por meio de duas espécies de "variá- aos aspectos do mundo empírico pertinentes ao analista, do que às propriedades veis estratégicas": empregados: dos conceitos enquanto A saturação empírica designa, assim, fotográficos ou quais quer outros as variáveis gerais, correntemente utilizadas nos estudos quantitativos, como pelo qual pesquisador julga que os últimos documentos, entrevistas ou observa- sexo, a idade, a profissão ou a classe social, a região, etc.; ções não trazem mais informações suficientemente novas, ou diferentes, para jus- tificar uma ampliação do material as variáveis específicas, relacionadas diretamente ao problema pesquisado e cuja pertinência é conhecida pelo pesquisador, ou então, simplesmente, pre- A descoberta do "fenômeno da saturação" é anterior à criação do conceito, por sumida. A escolha dessas variáveis resulta tanto das pesquisas anteriores, como Glaser e Strauss. Encontrando suas raízes na indução analítica, o se tra- de hipóteses teóricas que nos levam a suspeitar de sua importância enquanto duz pela idéia de que, se a análise dos dados de um grupo é bem feita, "nós não te- "fonte de diferença". mos mais nada de importante para descobrir sobre o grupo do que estes dados con- Não se trata, portanto, de visar a uma representatividade numérica na amostra cernindo por uma acumulação suplementar de dados pertencendo ao mesmo gru- (por exemplo, um membro de um partido político minoritário contra dez mem- po" (ZNANIECKI, 1934: 249). Lembremos que não se deve pedir ao princípio de sa- bros de um partido majoritário), em relação ao universo de análise (população), turação o que nenhuma pesquisa pode fazer: dar conta do real em sua totalidade. mas tão simplesmente em ter um ou dois exemplos por grupo, pois, de qualquer A saturação é menos um critério de constituição da amostra do que um critério maneira, a representatividade estatística não serve, aqui, para nada: "Assim, os que de sua avaliação metodológica. Ela cumpre duas funções capitais: de um ponto de invocam certos grupelhos terão tanto espaço na amostra, quanto os aderentes ou vista operacional, ela indica em qual momento o pesquisador deve parar a coleta os eleitores de alguns partidos de massa" (MICHELAT, 1975: 236). Se o objeto da dos dados, evitando-lhe, assim, um desperdício inútil de provas, tempo e dinhei- pesquisa se refere a uma experiência vivida, como parto, tenta-se produzir o con- ro; de um ponto de vista metodológico, ela permite generalizar os resultados para traste de maneira semelhante, mas tendo em conta o fato de que todas as informan- o conjunto do universo de análise (população) ao qual o grupo analisado pertence tes tiveram, por outro lado, essa experiência comum. (generalização Michelat 245) argumenta que, no âmbito das pesquisas sobre as atitu- Salientemos, no entanto, que, em geral, processo de saturação empírica exige des, a experiência mostra que após umas trinta ou quarenta entrevistas tem-se ma- que se tenha tentado, durante a coleta dos dados, maximizar a diversificação inter- terial suficiente para cessar a coleta dos dados, com a informação suplementar não na ou intragrupo. A diversificação interna é particularmente importante nas pes- acrescentando grande coisa (em matéria de diversidade). Como se torna difícil tra- quisas comportando entrevistas. Por outro lado, ela não se aplica, necessariamente, tar qualitativamente a informação para além de quarenta ou cinqüenta entrevistas às pesquisas exclusivamente documentais. Neste caso, é simplesmente a ausência em profundidade, limite prático do método coincide de maneira ideal com o de temas novos que produz a saturação (cf. MARTEL, 1994). ponto de exaustividade dessa problemática. Contudo, essa coincidência não ocor- re, necessariamente, em relação a outros objetos; uma escolha teórica também se impõe. De um lado, na amostra por contraste, o pesquisador sabe quantos sujeitos ele gostaria de ter para cada categoria, bem como o número total de categorias; ele tem, portanto, uma idéia do número total de entrevistas que ele terá em sua amos- 33. Ver a definição do conceito de perda social (social loss) por Glaser e Strauss (1967: 106-107; 111-112). tra, antes de ir a campo. 34. Bertaux dá uma definição semelhante da saturação (de conhecimento): "A saturação é o fenôme- Mas, como se coloca a questão da generalização nas pesqui- no pelo qual, realizado um certo número de entrevistas (biográficas ou não, o pesquisador ou a sas por contraste com entrevistas? Fazendo referência a estas pesquisas, Fichelet, equipe têm a impressão de não descobrir mais nada de novo, ao menos no que concerne ao objeto so- Fichelet e May observam que: ciológico da (BERTAUX, 1980: 205). 198 199LEI DO DIREITO AUTORAL do conceito e assegurar-se de sua pertinência teórica e de seu caráter heurístico. A amostra por contraste Quando, após aplicações sucessivas, os dados não acrescentam nenhuma proprie- O objetivo da amostra com entrevistas é abrir os caminhos para a dade nova ao conceito, pode-se dizer que o conceito criado está saturado (cate- comparação (externa), ou para uma espécie de "totalidade Empre- gory's theoretical O conceito de saturação teórica se relaciona à sua ende-se, aqui, a construção de um mosaico, ou de uma maquete pela mediação de abordagem e é menos importante para meus objetivos, salvo como segundo plano um número diversificado de casos. assim, idealmente falando de garantir para compreender a saturação empírica. a presença, na amostra, de ao menos um representante (de preferência, dois) de A saturação empírica, ou "de conhecimento", para empregar o termo de Bertaux cada grupo pertinente em relação ao objeto da investigação. Michelat (1975: 236) (1981:37), por oposição à saturação teórica, aplica-se mais aos próprios dados, ou aponta que o contraste pode por meio de duas espécies de aos aspectos do mundo empírico pertinentes ao analista, do que às propriedades veis estratégicas": fotográficos ou quaisquer outros. dos conceitos enquanto tais. A saturação empírica designa, assim, o fenômeno as variáveis gerais, correntemente utilizadas nos estudos quantitativos, como pelo qual pesquisador julga que os últimos documentos, entrevistas ou observa- sexo, a idade, a profissão ou a classe social, a região, etc.; ções não trazem mais informações suficientemente novas, ou diferentes, para jus- tificar uma ampliação do material as variáveis específicas, relacionadas diretamente ao problema pesquisado e cuja pertinência é conhecida pelo pesquisador, ou então, simplesmente, pre- A descoberta do "fenômeno da saturação" é anterior à criação do conceito, por sumida. A escolha dessas variáveis resulta tanto das pesquisas anteriores, como Glaser e Strauss. Encontrando suas raízes na indução analítica, se tra- de hipóteses teóricas que nos levam a suspeitar de sua importância enquanto duz pela idéia de que, se a análise dos dados de um grupo é bem feita, "nós não te- "fonte de diferença". mos mais nada de importante para descobrir sobre o grupo do que estes dados con- cernindo por uma acumulação suplementar de dados pertencendo ao mesmo gru- Não se trata, portanto, de visar a uma representatividade numérica na amostra po" (ZNANIECKI, 1934: 249). Lembremos que não se deve pedir ao princípio de sa- (por exemplo, um membro de um partido político minoritário contra dez mem- bros de um partido majoritário), em relação ao universo de análise (população), turação que nenhuma pesquisa pode fazer: dar conta do real em sua totalidade. mas tão simplesmente em ter um ou dois exemplos por grupo, pois, de qualquer A saturação é menos um critério de constituição da amostra do que um critério maneira, a representatividade estatística não serve, aqui, para nada: "Assim, os que de sua avaliação metodológica. Ela cumpre duas funções capitais: de um ponto de invocam certos grupelhos terão tanto espaço na amostra, quanto os aderentes ou vista operacional, ela indica em qual momento pesquisador deve parar a coleta os eleitores de alguns partidos de massa" (MICHELAT, 1975: 236). Se o objeto da dos dados, evitando-lhe, assim, um desperdício inútil de provas, tempo e dinhei- pesquisa se refere a uma experiência vivida, como parto, tenta-se produzir con- ro; de um ponto de vista metodológico, ela permite generalizar os resultados para traste de maneira semelhante, mas tendo em conta o fato de que todas as informan- o conjunto do universo de análise (população) ao qual o grupo analisado pertence tes tiveram, por outro lado, essa experiência comum. (generalização Michelat (1975: argumenta que, no âmbito das pesquisas sobre as atitu- Salientemos, no entanto, que, em geral, o processo de saturação empírica exige des, a experiência mostra que após umas trinta ou quarenta entrevistas tem-se ma- que se tenha tentado, durante a coleta dos dados, maximizar a diversificação inter- terial suficiente para cessar a coleta dos dados, com a informação suplementar não na ou intragrupo. A diversificação interna é particularmente importante nas pes- acrescentando grande coisa (em matéria de diversidade). Como se torna difícil tra- quisas comportando entrevistas. Por outro lado, ela não se aplica, necessariamente, tar qualitativamente a informação para além de quarenta ou cinqüenta entrevistas às pesquisas exclusivamente documentais. Neste caso, é simplesmente a ausência em profundidade, o limite prático do método coincide de maneira ideal com o de temas novos que produz a saturação (cf. MARTEL, 1994). ponto de exaustividade dessa problemática. Contudo, essa coincidência não ocor- re, necessariamente, em relação a outros objetos; uma escolha teórica também se impõe. De um lado, na amostra por contraste, o pesquisador sabe quantos sujeitos ele gostaria de ter para cada categoria, bem como número total de categorias; ele tem, portanto, uma idéia do número total de entrevistas que ele terá em sua amos- 33. Ver a definição do conceito de perda social (social loss) por Glaser e Strauss (1967: 106-107; 111-112). tra, antes de a campo. 34. Bertaux dá uma definição semelhante da saturação (de conhecimento): "A saturação é o fenôme- Mas, como se coloca a questão da generalização nas pesqui- no pelo qual, realizado um certo número de entrevistas (biográficas ou não, o pesquisador ou a sas por contraste com entrevistas? Fazendo referência a estas pesquisas, Fichelet, equipe têm a impressão de não descobrir mais nada de novo, ao menos no que concerne ao objeto so- Fichelet e May observam que: ciológico da investigação" (BERTAUX, 1980: 205). 198 199LEI DO DIREITO AUTORAL Cada entrevista - se ela tiver sido bem realizada e bem analisada, e, sexo, a idade, o nível de instrução, etc.; porém, são habitualmente as variáveis par- particularmente, relacionada com que é (socialmente, culturalmen- ticulares ao grupo (e à problemática) que contam mais (diferentes papéis, anos te, etc.) a pessoa entrevistada representará bem mais do que uma en- experiência, etc.). Se necessário, pode-se reduzir, ou reajustar o tamanho do gru- trevista com uma pessoa: o que nos importa no que ela veicula é mui- po, dizendo, por exemplo, que serão pesquisados somente os advogados da função to mais do que atitudes ou representações "pessoais", as atitudes e as pública, etc. Mas, também se pode iniciar a pesquisa e, após uma melhor determi- representações dos grupos aos quais pertence ou se vincula a pessoa. Se for mais sobre o indivíduo se exprimindo que se baseia a coleta da nação do objeto, buscar a diversificação dos ser reproduzido ou informação, será sobre ele, enquanto membro de múltiplos grupos Nessa espécie de amostra, é muito difícil prever o Se sociais, enquanto expressão de seu multipertencimento, enquanto riáveis estratégicas tiverem sido estabelecidas pela constituição da amostra, núme- "modelo" das estruturas da vida social, que recairá a análise (FI- ro e o cruzamento delas darão uma idéia aproximada do de entrevistas (uma CHELET; FICHELET; MAY, 1970: 2). ou duas para cada subcategoria). iniciada a pesquisa, pode se A representatividade ou a generalização se baseia, então, primeiramente, transformar radicalmente, em função da orientação que toma a construção do obje- numa hipótese teórica (empiricamente fundamentada), que afirma que os indiví- to. As dificuldades práticas podem também obrigar a modificar os critérios. Ces- duos não são todos intercambiáveis, já que eles não ocupam mesmo lugar na es- sa-se, aqui, a coleta dos dados, quando se obtém a saturação empírica. É por esta ra- trutura social e representam um ou vários grupos. Eles são, assim, portadores de zão que se faz usualmente a análise, à medida que a coleta dos dados progride. estruturas e de significações sociais próprias a esses grupos. É graças a um conjun- O que se denomina uma "amostra por fileira", em "cascata", ou "por bola de to de características comuns, particulares a cada grupo, que se podem destacar al- neve" (snowball sample) designa, geralmente, um modo de constituir a amostra gumas tendências e generalizar para todos os indivíduos em situação semelhante. por homogeneização, ou a amostra de acontecimento (estudo de caso único). Esta Essa hipótese é, evidentemente, dosada pelos múltiplos pertencimentos do indiví- técnica é muito útil quando o acesso aos dados é difícil, ou o material concerne aos duo e pelo fato de que ele não é a expressão de uma regularidade monótona deter- "dados ocultos" (hidden data). Esses problemas podem ser devidos à mobilidade, minada por seu lugar na estrutura social. Vê-se surgir, assim, a possibilidade de re- ou dispersão, particular de certos grupos, à natureza intimista e delicada de algu- sultados inesperados e de zonas nebulosas. mas questões, a atitudes de autodefesa do grupo, etc. Graças a um primeiro infor- Todavia, a generalização empírica encontra também uma outra base numa boa mante ou a um especialista, o pesquisador tem acesso ao próximo, procedendo, descrição interna de cada caso e na subseqüente comparação com os outros casos. então, por contatos sucessivos. Nesse caso, deve-se refletir a posteriori sobre o al- Como o diz Bourdieu (1993: 8), agrupando em torno de um caso outros casos que cance e os limites da amostra para adaptar o objeto e os objetivos às informações às quais se pôde ter acesso. são como suas variantes, coloca-se em evidência a representatividade de cada caso analisado. Não é, portanto, por saturação, mas por comparação, que se chega, Em geral, as pesquisas que recorrem à amostra por homogeneização permitem aqui, à generalização. São as diferenças entre os grupos que vêm reforçar a perti- descrever a diversidade interna de um grupo e autorizam a generalização empírica nência da descrição proposta para cada grupo. por saturação. Duas estratégias de contraste reduzido A amostra por homogeneização O analista pretende pesquisar, aqui, um grupo relativamente homogêneo; Há duas estratégias diferentes ligadas à finalidade teórica, em virtude da qual isto é, "um meio organizado pelo mesmo conjunto de relações socioculturais" se pretende introduzir um determinado grau de comparação externa, sem buscar (BERTAUX, 1980: 205): dos operários, dos advogados, dos desempregados, ou necessariamente dar uma visão completa ou exaustiva do assunto. Em geral, dese- uma comunidade religiosa, etc. O controle da diversidade externa se faz pela pró- ja-se aqui obter uma certa diversificação externa, e, ao mesmo tempo, desenvolver pria escolha do objeto. Certamente, algumas categorias sociais ou socioprofissio- mais a fundo a análise de pelo menos um dos subgrupos considerados. A primeira nais apresentarão, mesmo assim, uma maior diversidade do que outras. Uma vez estratégia consiste em constituir uma amostra por a que o pesquisador tenha escolhido o grupo específico, com base em quais critérios segunda, por "contraste-saturação". deverá, então, escolher seus informantes? É princípio da diversificação interna que se aplica: trata-se de tomar os infor- A amostra por contraste-aprofundamento mantes mais diversos possíveis no grupo, a fim de maximizar a análise extensiva do Este tipo de amostra se aplica ao "estudo coletivo de casos", e se situa numa grupo escolhido. Algumas variáveis gerais devem ser ainda consideradas, como o zona cinza entre o caso único e o multicasos. As pesquisas que se baseiam na 200 201LEI DO DIREITO AUTORAL amostra por contraste-aprofundamento são um pouco como estudos de caso úni- A decisão de fim à coleta dos dados se aplica, portanto, a cada caso (acon- realizados de modo a se completar ou a estabelecer uma comparação. Quando tecimento) separadamente; isto é, aos dados verticais (análise em profundidade) se pesquisam dois casos semelhantes, essa estratégia se aproxima da amostra por não aos dados horizontais (acumulação de casos), e é semelhante a decisão que se homogeneização. Mais usualmente, a finalidade teórica consiste, aqui, no contras- toma em um estudo de caso único. Se o decide utilizar a noção de sa- te; por exemplo, a comparação entre duas escolas ou três famílias de um meio so- turação, é no sentido de atingir a exaustividade de cada universo de análise: ela não cial diferente. De um ponto de vista teórico, ela se caracteriza por três idéias-mes- concerne à acumulação extensiva dos dados para ao nível tra: 1) a comparação entre um certo número de casos (via de regra, reduzido); 2) para a população correspondente; mas se refere, isso sim, uma acumulação in- cada caso tem um certo volume de material empírico e é objeto de uma descrição tensiva e completa. A noção de saturação, ou, melhor ainda, de exaustividade, não em profundidade; e 3) cada caso é exposto de uma forma relativamente autônoma, conserva, aqui, senão sua diz quando parar mesmo que o fato de justapor todos os casos em uma mesma obra possibilite acres- tical sugerindo que "se fez o giro" concreto (all-around centar informações, estabelecer comparações, ou dar uma melhor visão de conjun- to do problema. A imagem dominante é a de diversas peças de um mosaico, ou de A amostra por contraste-saturação uma constelação de casos sobre uma problemática determinada. O segundo critério é menos importante, pois o que conta é que os casos sejam para falar como Esta forma de amostra se refere mais às pesquisas baseadas em entrevistas Bourdieu (1993: 9) - concebidos e construídos como "conjuntos auto-suficien- (ou documentos) que podem acumular vários casos, justamente porque elas são tes". Notemos que esta estratégia pode ser eventualmente utilizada para dar uma em si mesmas menos complexas, ou são tratadas de maneira menos complexa visão de conjunto de um assunto; assim sendo, o número de microinvestigações (em lugar de fazer, por exemplo, 100 horas de entrevistas com um informante, serão feitas duas, com vários). Assim como Grell (1986: 163), pode-se dizer que pode ser bastante elevado e a finalidade de contraste reduzido não se aplica. o relato, aqui, é geralmente oral (entrevistas gravadas e integralmente transcri- Tomemos exemplo dado por Stake (1994: 242) de uma pesquisa sobre a to- tas), curto (duas horas, aproximadamente) e tópico (ele não se reporta à vida mada de reféns. O pesquisador começa por elaborar um quadro de diferentes situa- completa do entrevistado). ções deste gênero: um roubo de banco, um desvio de avião, por seqüestro por um grupo religioso, um pai que rapta seu próprio filho, etc. Em seguida, ele pesquisa O tipo de técnica ou de material empírico permite combinar, segundo a finali- pelo menos dois destes casos, tratando cada qual como um caso único, mesmo que dade teórica que o pesquisador se atribui, a amostra por contraste (em uma escala faça comparações entre eles. Não se acumulam, aqui, vários casos de um mesmo reduzida) e a amostra por homogeneização (por saturação). Geralmente, não con- tipo (por exemplo, dois roubos de banco), mas se contrastam acontecimentos que, vém ultrapassar 50 ou 60 entrevistas, uma vez que, como eu o assinalei mais aci- em hipótese, são relativamente diferentes, a fim de ver que resulta da descri- ma, torna-se difícil tratar o conjunto do material. Evidentemente, tudo isso depen- ção em profundidade de cada um deles e de sua comparação. de ainda do objeto da pesquisa. Em geral, pesquisador sabe de antemão quantos casos irá abordar e não uti- Ilustrarei esse modelo, reportando-me a um programa de pesquisa mais amplo liza a noção de saturação para proceder à generalização empírica. De fato, ele não sobre os custos sociais do sistema penal. Uma das pesquisas deste programa se refe- vê a necessidade de saturar a categoria de acontecimentos, "tomadas de reféns re, particularmente, aos justiceiros masculinos oriundos de diferentes classes so- nos roubos de banco", para generalizar conjunto desses acontecimentos" ao ní- Pelo tema, vê-se já o interesse teórico por um certo grau de comparação. Mas, de outro lado, nós queríamos aprofundar alguns subgrupos e explorar outros deles, vel empírico. Um único caso bem construído pode lhe permitir separar as carac- que exigia a limitação do contraste. O interesse pela exploração de zonas desco- terísticas essenciais associadas a esse gênero de acontecimentos. As observações nos incitava também a manter, no procedimento, uma certa abertura a quanto à generalização (teórica) - que eu havia feito na secção destinada às ajustamentos, no decorrer do processo. As variáveis para construir a amostra foram amostras por caso único convêm aqui. Além disso, pode-se reforçar a represen- escolhidas em função das finalidades teóricas, da experiência no campo e da revisão tatividade de cada tipo de acontecimento, comparando um ao outro, como na de pesquisas. Nós optamos, então, por uma amostra construída em dois tempos. Du- amostra por contraste. rante o primeiro tempo, nós visávamos a 24 informantes, devendo cada uma de nos- 36. uma descrição mais detalhada da metodologia em Blankevoort, Landreville e Pi- 35. De fato, a questão seguinte não faz sentido aqui: "em qual momento devo parar de acrescentar res (1979: 184-188), ou em Landreville, Blankevoort e Pires (1981). Ela também foi objeto de dois outros casos do mesmo a fim de generalizar para a sua população respectiva?" artigos específicos (PIRES; LANDREVILLE; BLANKEVOORT, 1981; PIRES, 1989). 202 203DO DIREITO AUTORAL sas categorias ser representada por um indivíduo. Num segundo tempo, após uma "burguesia/justiça penal", do início, tomou a forma de três casos-tipo mais contex- primeira análise, havíamos previsto proceder à pesquisa de 30 ou 40 outros casos, a tualizados, que não esgotam tudo o que se pode encontrar como variedade no partir dos quais tentaríamos construir casos-tipo empíricos, e saturá-los. ma penal (realidade empírica) concernente a este grupo. Os casos de corrupção, por As três variáveis julgadas pertinentes para constituir a amostra e buscar o con- exemplo, não foram examinados, nem o do politico implicado em caso traste eram: a intensidade do contato com o sistema judiciário, o tipo de infração e de roubo. Em resumo, nós reduzimos o alcance teórico da população (universo de a classe social (portanto, duas variáveis específicas e uma geral). A primeira variá- análise mais restrito) para a qual aplicar uma generalização ou vel foi operacionalizada em função de três etapas do processo penal (após convo- Evidentemente, a comparação entre cada caso-tipo (como nas pesquisas cação, após processo, após sentença); para a segunda, escolhemos quatro tipos de uma amostra por contraste) também a representatividade de cada um deles, infrações; e, por fim, as diferentes classes e frações de classe foram divididas, hipo- considerado separadamente. Além disso, nos pudemos destacar algumas teticamente, em duas categorias: as classes e camadas polarizadas para cima e as ticas da justiça penal, alguns mecanismos de produção de custos alguns classes e camadas polarizadas para baixo. mecanismos de neutralização próprios a cada caso-tipo, para os quais não é necessá- Em realidade, nós encerramos o primeiro tempo de coleta dos dados após 18 rio recorrer à saturação para atingir a generalização teórica. No que diz respeito às entrevistas, e não 24, como previsto. Também abandonamos a primeira variável. características e mecanismos, passa-se diretamente da amostra aos universos gerais, No final da segunda etapa, um total de 42 entrevistas, das quais 12 com como nos estudos de caso único. Estes resultados permanecem, portanto, válidos, pessoas de diversos grupos "favorecidos" (polarizados para cima) e 30 com pes- até que sejam como todo resultado na ciência aprofundados, corrigidos, trans- soas provenientes de diferentes grupos "desfavorecidos" (polarizados para baixo). postos a campos não-explorados, etc., por outras pesquisas referentes ao tema. Não encontramos nenhum caso pertencente à alta burguesia, e somente dois casos eram oriundos da burguesia média. Os outros casos do grupo favorecido eram de A amostra por busca do caso negativo pequenos comerciantes bem estabelecidos e de alguns membros (ou seus filhos) de camadas superiores da nova pequena-burguesia. Digamos, de imediato, que um "caso negativo" é uma prova que anula as hipóte- Ao longo da análise, tentamos diferentes formas de reagrupar as entrevistas, ses explicativas do pesquisador, ou que aparece como uma "exceção" ao seu modo em função dos resultados empíricos significativos. O objetivo, aqui, era explorar a de ver e de apresentar as coisas, etc. Ele é, para retomar a expressão de Weber, um possibilidade de construir casos-tipo empíricos. Nós nos demos conta da homoge- "fato inconveniente", ou ainda, um contra-exemplo. A pesquisa por busca do caso neidade interna de cada caso-tipo, assim como de sua capacidade de contraste com negativo consiste em formular uma hipótese para explicar um problema, e tentar, os No final, nós destacamos seis casos-tipo: 1) classe burguesa, infrações em seguida, "destruí-la", procurando provas contrárias (casos negativos); isto é, ca- econômicas; 2) nova pequena-burguesia, delitos "tradicionais" (assassinato, vio- pazes de questioná-la. A pesquisa termina, quando se consegue encontrar uma for- lação, roubo qualificado); 3) jovens da (pequena) burguesia (tradicional), delitos mulação da explicação que resista a todos os casos conhecidos, sem exceção. "tradicionais"; 4) classe proletária, delitos 5) excluídos, pequenos Pelo que eu saiba, as pesquisas baseadas nesse tipo de amostra são muito raras, delitos contra os bens; 6) infrações ao código de trânsito. pois este procedimento só pode ser aplicado a um número reduzido de problemas Cabe notar que as variáveis constitutivas da amostra não coincidem ponto por teóricos e de objetos de pesquisa. Ao que tudo indica, ele foi concebido para resol- ponto com os casos-tipo estabelecidos após a análise final. Isto revela a dimensão in- ver enigmas relativos a algumas formas particulares de experiências pessoais. Ele dutiva dos casos-tipo, a despeito de uma parte de pré-construção teórica, e também foi orientado, portanto, para a explicação dos comportamentos, e não teria sido serve para ilustrar a transformação entre a "amostra inicial" e a "amostra final". Com utilizado no contexto do modelo societário. Eu o ilustrarei por meio da pesquisa essa nova categorização em casos-tipo, pressupõe-se que a saturação não possa ser de Lindesmith (1947), referindo-me à de Cressey (1953). Trata-se de pesquisas obtida em relação a todos esses casos, e nem da mesma forma. Por força das circuns- bem conhecidas na sua área, muito bem construídas, e que chegaram a resultados tâncias, e apesar de nossos esforços, cerca de dois terços das entrevistas foram reali- convincentes. Além disso, elas apresentam a particularidade de ter conciliado a zadas junto a homens pertencendo às camadas subalternas e, principalmente, ao abordagem da Escola de Chicago, a pesquisa qualitativa e uma concepção positi- "proletariado precário". Os casos-tipo 4 e 5 foram de longe os melhor saturados. No vista estrita da ciência. que concerne aos outros, nós maximizamos a saturação, procedendo de modo inver- Para avaliar este procedimento, é preciso entendê-lo como uma resposta radical Em lugar de acrescentar as entrevistas para abranger a categoria inicial, nós a dos pesquisadores qualitativos à crítica que argumentava que era impossível genera- estreitamos, juntando outras qualificações. Assim, por exemplo, a categoria geral lizar e verificar hipóteses a partir da pesquisa qualitativa. Ultrapassando o próprio 204 205LEI DO DIREITO AUTORAL procedimento, essas pesquisas suscitaram interesse pelos casos negativos ou os 6) Por fim, devem-se examinar todos os casos pertinentes referidos na literatu- "contracasos-tipo", mesmo que não se chegue a reconhecer - como este modelo o ra especializada, para verificar se eles, por sua vez, constituem, ou não, casos faz o seu poder de invalidar inteiramente o quadro teórico de referência. negativos. Todos os direitos réservados e protegidos Eis, em resumo, as principais características desse procedimento: O problema teórico da pesquisa de Lindesmith é o "fato de que algu- mas pessoas que experimentam os efeitos das drogas à base de ópio, e que as utili- Trata-se de construir teorias comportamentais para a mediação de um proce- zam durante um período de tempo suficiente para criar a dependência física, não dimento visando verificar hipóteses que sejam confrontadas comos ou se tornam dependentes da droga (do not become addicts), enquanto outras, subme- O objetivo é chegar a uma forma generalização explicitamente determios tidas ao que, aparentemente, seriam as mesmas condições, tornam-se dependen- nista e universal. empregados: eletrônicos, mecânicos, tes". Ele narra que este problema constituía um verdadeiro enigma para qual a li- O problema de pesquisa é estritamente limitado. ainda que a explicação seja teratura especializada não tinha uma resposta satisfatória. Ele adotou um procedi- geral, isto é, aplicável a qualquer manifestação desse preciso. mento permitindo-lhe testar e corrigir hipóteses para explicar esse de modo que a explicação final fosse baseada na observação e pudesse ser considerada Adota-se uma perspectiva positivista estrita, segundo a qual a mesma causa como uma teoria universal concernente a este problema preciso. A teoria se preten- deve sempre produzir o mesmo efeito. de universal, no sentido pleno do termo: sua aplicação não se limita aos america- Esses pesquisadores justificam a generalização que eles propõem por meio da nos que são dependentes do ópio, menos ainda aos usuários das camadas inferio- noção de indução analítica, e eles têm razão. Porém, é preciso ter em mente que a in- res, e nem mesmo aos usuários do século XX; ela não se limita a "nenhum perío- dução analítica não se aplica somente a esse procedimento estrito da busca do caso do histórico" (LINDESMITH, 1947: 4). Certamente, Lindesmith não procura nem negativo, e também que ela não exige os mesmos pressupostos Os outros determinar as características do nem explicar comportamento de con- modelos de pesquisa procedem também por indução analítica, mas num outro con- sumo de drogas enquanto tal. texto Notemos, de passagem, que a crítica puramente filosófica é, aqui, ineficaz: não basta dizer "eu sou contra o determinismo", para refutar os resultados Cressey (1953: 16) apresentou uma boa descrição do método utilizado por es- sas pesquisas. Eu a reproduzo, com pequenas modificações, para tomar em consi- obtidos. Em relação a determinados objetos, postulados estritos desta ordem podem deração o procedimento de Lindesmith: produzir resultados satisfatórios. É preciso ver também que esse modelo não é mais inspirado numa lógica puramente indutiva, como se poderia ser levado a pensar. 1) Dá-se início, definindo o problema (caracterizar enigma) e delimitando o Esses autores não defendem que se deva fazer um grande número de observações a ser estudado. confirmando a hipótese, antes de poder generalizá-la. Eles tentam, de preferência, 2) Formula-se, de um modo ou de outro, uma primeira hipótese explicativa do alterar uma hipótese. Mais importante: a hipótese explicativa inicial não deve provir diretamente das observações empíricas; basta que ela possa ser alterada por casos 3) Executa-se a busca dos "casos negativos" (the search for negative evidence): negativos. Entretanto, eles aceitam da indução a idéia de que a teoria não pode en- estudam-se um ou alguns casos à luz dessa hipótese para ver se ela resiste a es- trar em conflito com nenhuma manifestação empírica pertinente. sas verificações. A seleção dos temas é feita em função de sua pertinência em relação ao proble- 4) Todo caso negativo encontrado deve nos levar, seja a reformular a hipótese, ma proposto. É impossível prever o número de entrevistas ou de observações. Lin- ou a redefinir o problema, de modo a considerar o caso negativo, isto é, a fugir desmith (1947: 5) entrevistou cerca de cinqüenta em várias ocasiões, à refutação introduzida pelo caso; essa nova definição deve, então, ser mais durante um longo período de tempo, e uma dezena de outros, uma única vez. precisa do que a primeira. Além disso, ele examinou os casos apresentados na literatura, para ver se encontra- 5) Dá-se continuidade a esse procedimento de exame de caso, de reformula- va indicações que pudessem refutar sua hipótese explicativa. Cressey (1953: 25, ção de hipótese, ou de redefinição do problema, até que se possa formular 27, 30) realizou 133 entrevistas, com uma média de 15 horas para cada sujeito, e uma explicação de alcance universal, que não seja questionada por nenhum também consultou cerca de 200 casos coletados por um colega (E. Sutherland) e dos casos examinados. Efetivamente, à medida que uma nova proposição ex- vários relatórios publicados, em busca de um caso negativo. Cabe notar, contudo, plicativa é enunciada, tenta-se alterá-la nas entrevistas seguintes e também que este vasto material empírico não propõe o mesmo problema para a análise, confrontá-la com as entrevistas precedentes, até que não se encontre mais pois esta é muito centrada, em razão do caráter circunscrito do problema. A coleta nada capaz de refutá-la. de dados é considerável, mas apenas uma pequena parte das informações é retida 207 206LEI DO DIREITO AUTORAL para a análise e o relatório final. Essas pesquisas apresentaram resultados interes- FICHELET, M.; FICHELET, R.; MAY, N. (1970). L'approche qualitative: éléments de santes, mas o rigor do modelo assim como suas características básicas o tornam méthode. Relatório apresentado no VII Congresso mundial de sociologia, Varna pouco apropriado à maioria dos problemas de pesquisa. Todos os direitos reservados protegidos GARABEDIAN, P.G. (1963). "Social Roles and Processes of Socialization in the Prison Community". In: ROSE, G. Deciphering Sociological Research (1982). Lon- Referências dres: McMillan. Este pode ser reproduzido ou ACOSTA, F. (1987). "De l'événement à l'infraction: le processus de mise en forme GINZBURG, C. (1980). "Signes, traces, pistes" Le - Histoire, Politique, Socié- pénale". Déviance et Société, vol. 11, n. 1, p. 1-40. té, vol. 6, novembro, p. 4-44. transmitido sejam quais forem os meios ATKINS, L. & JARRET, D. (1979). "The Significance of 'Significance In: GLASER, B.G. & STRAUSS, A.L.(1967). 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