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20 - JULHO 2019
O MarteloFeno&Silagem
Julia Abud Lima*, Júlio Barcellos**, Danielle Brutti***
HAYLAGE
Não é silagem nem feno, é feno-silagem, um método intermediário de conservação de forragem
Um recurso só deve ser economizado 
ou guardado quando ele existir, e a 
forragem não é diferente. Portanto, 
sempre que o pecuarista dispor de um ali-
mento para o seu gado, deve racionalizar 
o uso, de forma a gerar sobras para perío-
dos de escassez. Além disso, gerar exce-
dentes de forma planejada, ou até mesmo 
o cultivo específico de uma determinada 
forragem para uso futuro, pressupõem 
a utilização de técnicas de conservação. 
Isso ocorre porque armazenar forragens 
que contêm alto teor de água e compo-
nentes que podem deteriorar-se antes do 
consumo pelos animais constitui o princi-
pal desafio de qualquer sistema de produ-
ção na pecuária de corte. Nesse sentido, 
a ensilagem e a fenação são os principais 
métodos de conservação das forragens 
utilizadas na alimentação do gado de cor-
te. Assim, têm-se os produtos silagem e 
feno, mensalmente tratados nesta seção 
da Revista AG, e, relembrando: fenação 
é o processo de conservação do pasto pela 
desidratação e ensilagem é o processo de 
conservação por meio da acidificação, re-
sultado da fermentação anaeróbica. 
Além desses métodos, surge uma ter-
ceira opção – amplamente difundida nos 
EUA e na Europa – denominada de feni-
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lage, feno-silagem, pré-secado ou haylage 
(termo em inglês). Esse método de con-
servação está baseado em um processo in-
termediário entre a ensilagem e a fenação, 
reunindo princípios de desidratação parcial 
(pré-secagem) e fermentação anaeróbica 
(rolos plastificados). Como justificativa 
técnica para esse processo, ao invés dos 
tradicionais já descritos, destaca-se a pos-
sibilidade de realizar a operação mecânica 
mais rápida do que a fenação, muito impor-
tante frente a restrições climáticas (chuvas 
e dias úmidos), as quais limitam a fenação; 
o uso de plantas em estádios mais ricos em 
folhas verdes, armazenamento no local de 
fornecimento (vantagem em relação ao silo 
trincheira) e, ainda, um material de quali-
dade, muitas vezes, superior ao feno tradi-
cional. Obviamente que incorpora maiores 
custos com equipamentos, combustíveis e 
operacionais, quase assemelhando-se à en-
silagem. 
De um modo geral, a elaboração de 
pré-secados, ocorre a partir de gramí-
neas tropicais ou temperadas, de alto 
valor nutricional e com potencial de 
fermentação, como aveia, azevém, 
tifton, Brachiarias e milheto, ou de le-
guminosas como a alfafa e os trevos. 
Todas essas plantas forrageiras podem 
ser enfenadas, mas, nesse processo de 
conservação, ocorrem perdas consi-
deráveis, seja pela etapa mecânica do 
corte e a formação do rolo de feno, par-
tindo de uma planta em que a relação 
folha:caule já diminuiu devido ao 
avanço no estádio fenológico, seja pe-
las perdas durante o armazenamento e a 
distribuição. Todas essas situações são 
minimizadas na produção da haylage, 
pois pode-se utilizar forrageiras com um 
teor de umidade mais elevado, melhor 
relação folha:caule e, ainda, um tipo de 
conservação na qual o rolo é envolvido e 
protegido por uma película de polietileno 
(filmes plásticos). 
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Feno&Silagem
A técnica da pré-secagem possibilita 
a ensilagem de plantas forrageiras com 
baixo teor de matéria seca, em um pro-
cesso razoavelmente simples, no qual 
fermentações indesejáveis são controla-
das através da diminuição da atividade 
de água ou elevação da pressão osmótica. 
Uma vez determinado o momento para 
a colheita, o corte das plantas não deve 
ser feito muito rente ao solo, preferen-
cialmente a 15 cm de altura, evitando-se 
impurezas (folhas e hastes mortas, solo) 
no material que será elaborado. Após o 
corte, há uma pré-secagem ou emurche-
cimento por, aproximadamente, de três 
a cinco horas, enleiramento e elaboração 
do rolo e seu envolvimento no plástico. 
A partir desse momento, os rolos podem 
ser armazenados e, decorridos 15 a 20 
dias, estão aptos para o fornecimento aos 
animais. 
A operacionalidade do pré-secado, 
quando se destina à produção de rolos, é 
similar à da produção do feno, mas pode 
existir uma técnica semelhante como se 
fosse ensilagem, com a forragem picada 
e compactada em um silo tipo “trincheira 
ou torta” ou, ainda, em bolsas tipo “silo 
bag”. Neste texto, cabe ressaltar que es-
tamos tratando exclusivamente do pré-
secado na forma de rolo, como se fosse 
um feno com alta umidade. Em síntese, a 
haylage, aqui denominada rolo ou pré-se-
cado, além de todas as etapas da fenação 
– o feno exige maior tempo de secagem 
da forragem cortada –, inclui a vedação 
completa, por meio de um envoltório 
plástico aplicado por equipamentos espe-
ciais acoplados à enfardadeira. 
A decisão pela fenação ou pré-seca-
do vai depender, a priori, da existência de 
equipamentos apropriados para a proteção 
do rolo e do momento do corte da planta, 
pois, dependendo das condições climáticas 
e do estádio fenológico desta, poderá ser 
decidido por um ou outro método de con-
servação (feno ou haylage). Se a planta esti-
ver muito matura e o clima, favorável (seco 
e com presença de sol), poderá ser elabora-
do o feno, mas, quando a planta é jovem e 
o clima permite, o destino poderá ser o pré-
secado. Assim, é um processo que se inicia 
com a escolha da planta no melhor estádio 
de composição nutricional do que para fe-
nação, em geral, resultando em um produto 
mais nutritivo aos animais, fato que é difícil 
de atingir na produção de feno. 
O padrão de fermentação do pré-se-
cado é diferente da silagem, pois é menos 
intenso devido a menor presença de subs-
tratos fermentáveis. Contudo, o resultado é 
satisfatório, tendo, inclusive, possibilidade 
de maior consumo pelos animais compa-
rado à silagem e ao feno. Por outro lado, 
essa fermentação quando o material não é 
bem pressionado na enfardadeira e, poste-
riormente, totalmente vedado, pode resultar 
na produção de constituintes tóxicos aos 
animais, reduzindo o consumo e o desem-
penho. Alternativas para minimizar esses 
riscos consistem na inclusão de aditivos 
específicos para esse tipo de procedimento, 
mas seus efeitos ainda são contraditórios. 
A produção do pré-secado geralmen-
te ocorre a partir de forragens que têm 
alto rendimento em massa verde, asso-
ciadas à boa composição bromatológica, 
que justifiquem o investimento em equi-
pamentos e nos custos operacionais, re-
sultando em um ingrediente conservado 
com o custo viável da unidade de energia 
e/ou proteína. 
A distribuição e a utilização é seme-
lhante ao feno normal, porém é necessário 
observar que, por se tratar de um alimento 
fermentado, as sobras podem entrar em de-
composição, ao contrário do feno, e induzir 
rejeição dos animais. O sistema de forne-
cimento em fenil circular ou horizontal é 
um dos mais apropriados, porque evita o 
pisoteio nas sobras quando o rolo é colo-
cado ao livre acesso sobre o solo. Assim, 
deve-se calcular a quantidade de rolos, con-
Haylage pode ser uma estratégia suplementar aos 
períodos de escassez de alimentos
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siderando o seu peso, a serem fornecidos 
diariamente aos animais e retirando o seu 
envoltório somente dos que serão consumi-
dos. Portanto, haylage é um processo mais 
complexo de conservação, e algumas reco-
mendações para a sua produção e utilização 
devem ser observadas:
 Somente faça o corte do material 
quando a previsão do tempo for favorável 
e corte somente a quantidade que pode 
ser acondicionada nos rolos e estocada 
com o nível de umidade ótima; 
 Observe antes de fornecer aos ani-
mais. Pela formação de ácidos decorren-
tes da fermentação, é esperado um odor 
alcoólico e uma coloração marrom, mas a 
presença de mofo ou sinais de deteriora-
ção significa que o produto não deve ser 
fornecido aos animais; 
 Pode utilizar um determinador da 
umidade e o nível adequado é, no míni-
mo, 45%.
 Os rolos podem serconfecciona-
dos com um teor de umidade inferior a 
45%, mas, nesse caso, a fermentação é 
menos eficiente para a conservação, o 
que pode gerar aquecimento do material 
e deterioração; 
 A forragem que foi cortada com 
um teor de umidade abaixo de 40% deve 
ser pré-secada suficientemente até o rolo 
alcançar 20% a 22% de umidade final;
Use exclusivamente materiais plás-
ticos específicos para esse tipo de conser-
vação de forragem;
 Armazenar os rolos de tal forma que 
o invólucro não seja perfurado, seja em um 
abrigo protegido, ou em um solo limpo e 
liso. Furos no invólucro permitirão a entra-
da de ar adicional no fardo, fazendo com 
que o material entre em decomposição;
 Os rolos devem ser enrolados de 
três a quatro vezes com o envoltório plás-
tico para uma vedação efetiva; 
 Haylage com alta umidade, acima 
de 70%, é propensa a perdas por infiltra-
ção e lixiviação da água, acarretando per-
das de proteína e energia destinada aos 
animais. Além disso, pode favorecer uma 
fermentação butírica, a qual reduz drasti-
camente o consumo da forragem; 
 A haylage é um meio de conserva-
ção de forragem que busca preservar as 
características bromatológicas de plantas 
forrageiras de alto valor nutricional aos 
ruminantes, protegendo das intempéries 
climáticas e constituindo-se em uma 
estratégia suplementar aos períodos de 
escassez ou como alimento base dos sis-
temas intensivos de produção. Por fim, 
uma análise criteriosa dos objetivos do 
uso da forragem conservada, sua viabi-
lidade operacional, os resultados espera-
dos e os benefícios econômicos serão os 
elementos necessários à tomada de deci-
são da produção desse tipo de alimento 
conservado na bovinocultura de corte. 
*Julia é graduanda em Medicina 
Veterinária, BIC-CNPq
NESPro/UFRGS
**Júlio Barcellos é 
médico-veterinário e doutor 
NESPro/UFRGS 
julio.barcellos@ufrgs.br
***Danielle é zootecnista e 
doutoranda do PPG-Zootecnia
NESPro/UFRGS

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