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23/11/2016 Ciência, tecnologia e economia: características frente à primeira e segunda revoluções industriais
http://www.espacoacademico.com.br/066/66rauen.htm 1/3
por ANDRÉ
TORTATO
RAUEN
Professor do
Departamento de
Economia da
Universidade do
Extremo Sul
Catarinense –
UNESC.
Economista e
Mestre em
Política
Científica e
Tecnológica.
 
Ciência, tecnologia e economia:
características frente à primeira e
segunda revoluções industriais
   
O artigo que se apresenta, tem por objetivos discorrer
sobre as principais características da relação entre
ciência, tecnologia e economia tanto num período
histórico marcado pela primeira revolução industrial,
quanto naquele que se segue após a segunda revolução
industrial. Portanto, defende‐se a hipótese de que a
distinção fundamental entre estes dois períodos
históricos é justamente o fato de que ora a técnica
precedeu a ciência e ora a ciência precedeu a técnica.
Tal como se verá a seguir.
O padrão do progresso tecnológico ou o relacionamento entre ciência e tecnologia presente
na segunda revolução industrial foi qualitativamente diferente do verificado quando da
primeira revolução industrial. Comecemos, pois, com a caracterização deste padrão
durante a primeira revolução.
As principais inovações introduzidas pela primeira revolução industrial, diziam respeito
principalmente à criação da máquina a vapor, a qual difundiu‐se da indústria aos
transportes, revolucionando o funcionamento de todo o conjunto da economia.
No contexto da primeira revolução industrial, o progresso técnico era desenvolvido através
da precedência da técnica sobre a ciência. Ou seja, a observação empírica determinava a
criação das inovações. Um exemplo clássico, que é citado tanto por Landes (1969) quanto
por Freeman (1974) é o da influência que a máquina a vapor teve sobre a criação da teoria
termodinâmica. Assim sendo, a produção tinha de “confiar num empirismo talentoso”
(Landes, 1969). 
Contudo, esta relação de precedência da técnica sobre a ciência inerente à lógica da
primeira revolução industrial após seu pleno desenvolvimento encontrava o esgotamento de
suas possibilidades. Dessa forma, a introdução de novas máquinas, baseadas nessa relação
entre tecnologia e ciência, não mais garantiam rendimentos suficientes para permitir a
cobertura dos custos de sua compra. O padrão de desenvolvimento tecnológico existente
não possibilitava mais a introdução no mercado das inovações, pois, estas já não eram
mais economicamente viáveis. Esse processo de diminuição do produto marginal das
inovações esta no cerne da explicação do esgotamento do padrão de desenvolvimento
tecnológico baseado na observação empírica dos fatos.
Como resultado do avanço tecnológico permitido pela primeira revolução industrial,
principalmente referente à queda no preço dos alimentos, ocorre uma mudança nos
padrões de consumo. A elevação da renda per capita permitiu que camadas mais pobres da
população passassem a demandar além de bens de primeira necessidade, produtos
manufaturados.
Não obstante, a esta elevação da renda per capita, os aumentos de produtividade gerados
pela introdução de inovações ao longo de todo o século XIX e referentes à primeira
revolução, permitiram a queda dos custos reais de produção e a conseqüente deflação.
Mas, com o já referido esgotamento do padrão de desenvolvimento tecnológico adveio a
significativa diminuição do investimento autônomo e com ele a estagnação econômica,
notadamente da economia inglesa, então motor da economia mundial.
A dinâmica que marca a transição de um padrão para outro diz respeito também à
passagem de comando da economia, marcando assim, a ascensão dos Estados Unidos e da
Alemanha em detrimento do Reino Unido.
A desaceleração econômica marcada pelo esgotamento do padrão de progresso tecnológico
inerente a primeira revolução só foi revertido quando grandes avanços na área da ciência
permitiram a criação e o desenvolvimento de novas técnicas que por sua vez possibilitaram
a introdução de inovações, as quais permitiram a elevação do produto marginal das novas
técnicas empregadas.
O progresso técnico neste contexto, quando da segunda revolução industrial, era alcançado
através da precedência da ciência sobre a técnica. Em outras palavras, a observação
 
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23/11/2016 Ciência, tecnologia e economia: características frente à primeira e segunda revoluções industriais
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empírica já não bastava para o desenvolvimento das inovações – obviamente o empirismo
mostra‐se ainda muito relevante. Isto não quer dizer que os problemas práticos não
demandavam pesquisas, mas que agora o grau de complexidade requerido pelas inovações
inviabilizavam a manutenção do paradigma anterior de resolução de problemas técnicos.
Sobre a transição do padrão de desenvolvimento tecnológico verificado entre a primeira e
a segunda revolução industrial, Freeman (1974), afirma que as técnicas empíricas só
deram lugar a uma nova concepção de criação de inovações quando estas alcançaram uma
complexidade que as técnicas vigentes não podiam conceber.
Para Noble (1979), o período que precedeu a introdução da ciência no sistema produtivo,
foi marcado pela distancia entre a ciência e as possíveis aplicações práticas e nada tinha
haver com o que ele chama de atividade de money – making.
A transição do modelo baseado na técnica para o modelo de desenvolvimento tecnológico
fundado na ciência segundo Landes (1969), ocorreu de forma inevitável. Uma vez que, a
gama de problemas encontrados, não podia ser solucionada através da observação empírica
dos fatos, muitas vezes isto era virtualmente impossível. Assim, com o passar do tempo o
paradigma baseado na observação empírica não mais respondia a questões cada vez mais
complexas. Surgindo daí, a necessidade de se modificar a forma como eram tratados o
progresso tecnológico e o próprio desenvolvimento de inovações.
O desenvolvimento tecnológico presente na segunda revolução industrial, nada mais é para
Noble (1979) que a transformação da ciência visando à acumulação de capital através das
aplicações das descobertas no campo da física e da química, ambas inseridas no processo
produtivo de linhas montagem.
A segunda revolução industrial caracterizou‐se pela introdução do aço barato, da
capacidade de não só gerar, mas de distribuir de forma estável energia elétrica, do motor
a explosão e notadamente do que se convencionou chamar de administração científica, a
qual dizia respeito à racionalização da produção no chão de fábrica, facilmente visualizada
na difusão das linhas de montagem.
A consolidação do padrão de progresso tecnológico baseado no conhecimento científico,
cria na economia um incentivo às corporações a aventurar‐se nos caminhos tanto da
pesquisa básica quanto da pesquisa aplicada. Pois, o surgimento de inventos, previstos ou
não, com base nos conhecimentos científicos, não possuía precedentes na história
econômica. A indústria encomendava então, seus desejos aos laboratórios de P&D assim
como encomendava insumos de seus fornecedores (Landes, 1969).
A segunda revolução industrial também possibilitou que os processos produtivos fossem
revistos. Os problemas logísticos advindos do aumento da escala de produção e uma
conseqüente tendência à racionalização das atividades produtivas demandavam soluções
fundadas na ciência. Assim, emergem a padronização e a metrologia, as quais permitiram
a criação de respostas aos problemas enfrentados nessa nova dinâmica industrial.
O processo de transição do modelo empirista ao modelo científico caracteriza‐se também
por uma institucionalização do desenvolvimento tecnológico. Nesse sentido, o papel das
grandes corporações é fundamental. Uma vez que, por motivos de escala os grandes
conglomeradospodiam mais facilmente que pequenas e medias empresas, incorrer no
processo de pesquisa, pois, os elevados custos e riscos inerentes a essa atividade
constituam‐se em significativas barreiras à entrada.
Freeman (1974) e Noble (1979) concordam que a indústria neste momento histórico,
internaliza o processo de P&D e profissionaliza a busca por inovações. Esta se dá, através
da construção de uma, sólida, sistêmica e de grande escala, base de conhecimentos. O
grande exemplo dessa dinâmica é a realidade encontrada na indústria química
estadunidense, na qual, devido a grande complexidade do processo produtivo exigia – se
que toda a análise feita sobre o mesmo dever‐se‐ia basear em conhecimentos científicos.
Noble (1979) afirma que o desenvolvimento tecnológico baseado em conhecimentos
científicos ocorre lado a lado com a ascensão e o desenvolvimento das grandes corporações
estadunidenses. Assim, entender o processo de desenvolvimento da grande corporação
estadunidense é compreender como se deu a evolução do conhecimento técnico baseado na
ciência.
O desenvolvimento das peças intercambiáveis, isto é, fabricação de peças uniformes foi
sem dúvida alguma uma significativa mudança nos padrões de produção, que inclusive
tornaram factíveis as linhas de montagem iniciadas a partir da segunda revolução.
Assim, o esgotamento do modelo presente na primeira revolução industrial marca um
momento de ruptura na história do capitalismo de fins do século XIX e inícios do século XX,
no qual passam a emergir as indústrias baseadas em conhecimentos e consolida‐se a
posição dominante das grandes corporações. É no interior desse processo, de consolidação
da big science que emerge o hoje tão combatido modelo linear de inovação, ou science
push model.
Bibliografia:
Benko, G.
Economia, espaço e
globalização na
aurora do século
XXI. Hucitec. São
Paulo. 1996.
Freeman, C. A
teoria econômica da
inovação industrial.
Alinza Editorial.
Madrid. 1974.
Landes, D. The
unbound prometeus.
Cambridge
University Press.
Cambridge. 1969.
Mowery, D. e
Rosenberg, N.
23/11/2016 Ciência, tecnologia e economia: características frente à primeira e segunda revoluções industriais
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Não obstante ao esgotamento das possibilidades da observação empírica para a expansão
de um novo ciclo econômico, e a transformação qualitativa da relação ciência/tecnologia
já na segunda revolução industrial, a precedência da ciência sobre a técnica atinge toda
sua potencialidade apenas no que alguns, ousam chamar de terceira revolução industrial,
ou seja, na transição de um paradigma eminentemente fordista para algo parecido com
uma especialização flexível da produção (Benko:1996), esta última, fortemente baseada
nas rápidas transformações microinformáticas iniciadas ainda nas décadas de sessenta e
setenta do século XX.  Portanto, deve – se encarar a segunda revolução industrial mais
como um momento de transição entre ciência e técnica, do que realmente o completo fim
da preponderância da técnica sobre a ciência, a qual só se esgota completamente no findar
do século XX.
 
por ANDRÉ TORTATO RAUEN
 
 
 
 
Technology and the
pursuit of economic
growth. Cambridge
University Press.
Cambridge. 1989.
Noble, D. America
by design. Alfred A.
Knopf. New York,
1979.
Piore, M. Sabel,
C.  The second
industrial divide –
possibilities for
prosperity. Basic
Books. E. U. A.
1984.
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